Encerramento do FSM

O Fórum encerrou com uma grande reunião ao ar livre, chamada assembleia das assembleias, onde foram lidas, umas após outras, todas as conclusões das diferentes assembleias temáticas realizadas nos dias precedentes.

A actual crise mundial funcionou não só como um forte catalizador da mobilização para o fórum, mas também como um factor de clarificação e unificação das várias agendas dos diferentes movimentos.

Os documentos com as conclusões podem ser consultados em:
http://www.fsm2009amazonia.org.br/programacao/6o-dia/resultados-das-assembleias












Alguns pormenores do FSM 2009







As pinturas corporais, feitas com uma mistura de genipapo e carvão, foram o "adereço" mais utilizado pelos participantes


Vendedores de artesanato

Toda a cidade acolheu calorosamente os participantes do Fórum


Índios de diversas origens: uma das presenças mais marcantes neste Fórum


Vendedores de refrigerantes

Fórum Parlamentar Mundial apela ao fim dos off-shores


Publicado em: O Gaiense, 7 de Fevereiro de 2009

Em Belém do Pará, à margem do Fórum Social, parlamentares da América Latina, Europa, Filipinas e Palestina reuniram no Fórum Parlamentar Mundial e aprovaram uma importante declaração sobre a actual crise financeira.

A Rede Parlamentar Mundial foi criada com o objetivo de articular à escala global a actividade parlamentar numa perspectiva de esquerda e progressista, reconhecendo a necessidade de estreitar a relação entre a luta empreendida no parlamento e as protagonizadas pelos movimentos populares, sindicais, sociais, ambientais e outros.
No contexto da recente crise, considerou que a proteção dos espaços públicos das políticas neoliberais é uma das principais prioridades da sua acção.

A RPM defendeu ainda o encerramento de todos os paraísos fiscais (off-shores), que classificou como verdadeiros centros de fuga e evasão fiscal criminosa, que retira enormes recursos do uso social, em favor do uso privado dos capitalistas; essa seria uma das medidas mais importantes de combate à crise financeira e de defesa da transparência no mundo dos negócios.

Afirmou a necessidade de reorganização e reorientação das instituições financeiras internacionais, tal como o Banco Mundial, o FMI e a OMC, recusando a actual partilha entre os EUA e a União Europeia das presidências destas instituições. Há mais mundo para além das grandes potências capitalistas, dizem os deputados da rede, que consideram que a nova correlação de forças na América Latina, que hoje conta com um vasto leque de governos de esquerda, deverá ser um incentivo global para um desenvolvimento social e económico de novo tipo.

Belém do Pará - As noites quentes da Praça da República



Durante o Fórum Social Mundial, a cidade de Belém do Pará fervilha no contacto entre a população local e a estranha população flutuante que inunda as sucessivas capitais do movimento alterglobal.

Um ponto de encontro inevitável é a Praça da República, onde aos domingos tem lugar a feira dos artesãos.

Junto ao Theatro da Paz (a mais antiga casa de espectáculos da Amazónia, imponente construção do século XIX que se diz feita à imagem do Scalla de Milão), situa-se o Bar do Parque, uma pequeníssima construção do mesmo estilo e da mesma época do Theatro, a partir do qual se servem, numa animada esplanada, as caipirinhas e a cerveja Cerpa em garrafas de 600ml. Artesãos vendem de mesa em mesa brincos e colares feitos de ossos de peixes do Amazonas e penas de arara, as biojóias, como são chamadas por aqui.

Numa mesa qualquer, um homem com longas rastas toca um charango - instrumento de dez cordas típico de toda a zona dos Andes -, acompanhado por inúmeros instrumentos de percussão, que passam de mesa em mesa, para acompanhamentos improvisados de democracia musical participativa. No Fórum, a festa nunca pode faltar.

Entre as mulatas que não conseguem resistir ao embalo da música, uma capta especialmente as atenções. Não só pela perfeição do conjunto, pela mini mini-saia ou pelo decote apropriado para fazer frente ao calor húmido do Verão do Pará, mas sobretudo porque tem a cabeça decorada com duas orelhas de onça, lembrando a quem a vê os enormes perigos das noites da Amazónia, que os olhares e os sorrisos que distribui sublinham a amarelo vivo fluorescente.

Mas toda a esplanada se anima especialmente quando de muito alto cai uma manga madura, aterrando com estrondo nas mesas metálicas, ou num copo, ou numa cabeça qualquer. Ninguém se incomoda, que quando elas caiem estão boas para comer. Abençoado o povo a quem o céu envia mangas frescas para consumo grátis nas esplanadas.







O bloco do Xiri

Mas a maior animação é trazida à praça pelo Bloco do Xiri, de seu nome completo Bloco Hidráulico Carnavalesco Xiri Relampiando, um dos mais populares blocos da cidade de Belém, que tem estado na rua aos os domingos, dançando atrás do seu carro de som, aquecendo e mobilizando apoiantes para o Carnaval que está a chegar.

Segundo um dos organizadores, o cantor Eduardo Dias, o bloco está a homenagear o Fórum Mundial; a concentração é no Bar do Parque, na praça da República, de lá, o bloco segue pela cidade, realiza a sua guerra de lançamento de farinha maizena e pára no bar Pai’dégua, onde a bandinha do Pintadinho espera os foliões para o grande baile popular.

Numa longa conversa na esplanada do Bar do Parque, bem regada com caipirinhas, pergunto a três participantes do bloco o que quer dizer o seu nome – Xiri Relampiando –, que tem uma bela sonoridade, mas cujo significado não consigo entender de todo. Riem-se de mim. Insisto na pergunta, com um genuíno interesse pela informação. Custa-lhes a acreditar que, falando português, não consiga perceber. Lé me explicam (em termos que aqui não reproduzo) que “xiri” é nome que dão ao órgão sexual feminino. Confesso que não insisti para perceber o que quer dizer “relampiando”, mas deve ter a ver com os relâmpagos que aparecem nas camisolas do grupo. Dizem que havendo muitos blocos com nomes que incluem “cobra”, “pica-pau” e outras sugestões glorificando o órgão sexual masculino, decidiram fazer um que homenageia e defende as mulheres.

Deixo-vos aqui o manifesto cultural do grupo que, sabendo agora o que é o xiri, se pode ler com proveito. No Brasil, outro mundo é de facto possível.


Manifesto Cultural do Xiri Relampiando

O presente manifesto
É contra a banalidade,
A censura, a hipocrisia
E a falsa moralidade.
É o Xiri Relampiando
Em busca da liberdade!

Contra a discriminação
Seja de que for:
Xiri branco, preto, roxo,
Amarelo, furta-for,
Gordo, magro, cabeludo,
todos têm igual valor!

Xiri criado sem calça,
Xiri caboclo, brejeiro,
Xiri manso, xiri doido,
Xiri-açu verdadeiro,
Xiri sabor açaí,
Xiri nosso, brasileiro!

No Xiri Relampiando
Só não entra quem não quer
Pois como o garfo não pode
Separar-se da colher,
Quem o bom xiri defende,
Também defende a mulher!

Aqui mostramos o pau
Antes de matar a cobrar:
Contra o flagelo da AIDS
Camisinha use de sobra
Que um xiri bem preservado,
É xiri pra toda obra!

O Xiri Relampiando
Entra firme em lutas
Contra a vil exploração
De meninas prostitutas,
Contra qualquer violência
Praticada contra putas!

Menina, não sacrifica
O teu belo alvorecer:
Abre os olhos, fecha as pernas,
Deixa o teu xiri crescer
Que a fruta apanhada verde
Não serve para comer.

Abaixo a fidelidade
Que tira o tesão e o sono!
O Xiri deve ser livre
Que nem as folhas de Outono
E em qualquer lugar da Terra
Não deve, jamais, ter dono!




FSM - reuniões com os presidentes









Paralelamente ao FSM, os movimentos sociais organizaram uma reunião (com entrada por convite) com quatro presidentes da República: Rafael Corrêa do Equador, Fernando Lugo do Paraguai, Evo Morales da Bolívia e Hugo Chávez da Venezuela, subordinada ao tema “Diálogo sobre a integração popular da nossa América”, o único lugar do mundo onde, segundo os oradores, se passou da resistência ao neoliberalismo à fase de construção de alternativas concretas.

Os organizadores foram o MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, a FEDAEPS - Fundacion Ecuatoriana de Accion, Estudios y Participacion Social, o REMTE – Rede Latino Americana de Mulheres Transformando a Economia, e o ALAI – Agencia Latinoamericana de Información.

Antes de começarem as intervenções, enquanto se aguardava a chegada de Morales e Chávez, os presidentes Lugo e Corrêa animaram os presentes cantando canções revolucionárias, acompanhando os músicos de serviço.

Nos seus discursos, os quatro presidentes referiram-se longamente às transformações em curso nos seus países e às suas perspectivas sobre o socialismo, bem como à necessidade de uma solução comum para a crise internacional.

Rafael Corrêa, sublinhando que a alternativa já existe, afirmou que uma importante característica do socialismo do século XXI é a ausência de dogmas, a constante auto-crítica, a abertura na busca do seu caminho. Mas a maior diferença relativamente às experiências socialistas do século anterior prende-se com as opções de fundo quanto ao modelo e objectivos de desenvolvimento. O socialismo anterior, disse Corrêa, tinha como objectivo atingir um consumo de massas, um objectivo muito semelhante ao do capitalismo, mas pretendia atingi-lo com maior velocidade. Falhou ao não questionar o modelo de desenvolvimento e foi, do ponto de vista ambiental, um autêntico desastre.

Fernando Lugo afirmou o seu sonho de que a esperança do Sul também possa chegar ao Norte e realçou a importância do FSM. Defendeu que a integração regional na América Latina tem de ser construída a partir de baixo, participada pelo povo, para ser real e irreversível, e que as belas palavras dos presidentes e dos governos, sendo importantes, não chegam para tornar real este outro mundo possível.

Evo Morales, que afirmou não ser um convidado naquele tipo de reuniões dos movimentos, mas sim que quer ser convocado, para continuar a fazer o que sempre fez na sua vida de luta, analisou a situação na Bolívia e o recente referendo. Criticando a acção de alguns sectores conservadores da igreja católica, lançou o slogan “outra igreja é possível”. Lembrou que a Constituição não permite bases militares estrangeiras no seu país.

Hugo Chávez levantou a assembleia ao anunciar que agora é feminista, que compreendeu que todo o socialista tem que ser feminista. Falou do “outro mundo” que está a nascer na América Latina, que é ainda um bébé, mas que é a realização da utopia de Thomas More. Falou da Venezuela como território livre de analfabetismo como realização dessa utopia numa terra que há alguns anos tinha dois milhões de analfabetos. Elogiou a importância da criação do FSM num momento histórico em que parecia que não havia esperança e em que muitos acreditavam que o neoliberalismo não teria alternativa. Elogiou a proposta apresentada em Havana por Evo Morales de um Tratado de Comércio dos Povos como alternativa global de comércio justo contra os Tratados de Comércio Livre propostos pelas potências capitalistas.

As mulheres das redes feministas gritavam slogans tais como:

Se cuida / se cuida / se cuida imperialista
America latina vai ser toda feminista

Sou feminista / não abro mão
do socialismo e da revolução.



Nessa noite, num outro local, realizou-se um grande meeting público com a presença de cinco presidentes, estes quatro mais o anfitrião Lula, numa iniciativa sob o lema “América Latina e o desafio da crise internacional”.

FSM 2009 - Os locais do Fórum










Os seminários do Fórum realizaram-se nos dois extensos campus universitários da UFRA –Universidade Federal Rural da Amazónia e da UFPA – Universidade Federal do Pará, na margem do rio Guamá.

Estas fotografias, tiradas em frente à sala da UFPA onde participei num seminário da Transform! enquanto aguardava o início da reunião, dão uma ideia do ambiente do local.