31 de Janeiro - Um cartaz de Manuel António Pina, Germano Silva e João Botelho
Presidência portuguesa da União Europeia?
Nestes primeiros dias do ano de 2021, todos os meios de comunicação têm dado grande e justificado destaque à presidência portuguesa que agora começa.
Mas há um problema para o qual queria chamar a vossa atenção: os títulos de jornais e rodapés televisivos em que se refere a "Presidência portuguesa da União Europeia" são completamente desadequados e isso tem alguma gravidade que pode passar despercebida. Por duas razões.
A primeira e mais elementar é porque são falsos. Portugal não tem a Presidência da União Europeia porque isso não existe, a União Europeia pura e simplesmente não tem Presidência, nem Presidente. Portugal tem um Presidente, os Estados Unidos também, a União Europeia não tem. E isso não é um acaso nem um pormenor. Foi uma opção bastante ponderada, muito discutida e, penso eu, bastante sensata.
É claro que há muitas Presidências na UE já que as suas instituições são:
– o Parlamento Europeu
– o Conselho Europeu
– o Conselho
– a Comissão Europeia
– o Tribunal de Justiça da União Europeia
– o Banco Central Europeu
– o Tribunal de Contas.
O Parlamento Europeu, o Conselho e a Comissão são ainda assistidos por um Comité Económico e Social e por um Comité das Regiões, que exercem funções consultivas.
Ora, e falando só nas principais instituições políticas da UE, o Parlamento Europeu tem o seu Presidente (o italiano David-Maria Sassoli), o Conselho Europeu tem o seu Presidente (o belga Charles Michel), a Comissão Europeia tem a sua Presidente (a alemã Ursula von der Leyen) e só o Conselho (ou Conselho da UE ou Conselho de Ministros) tem uma Presidência rotativa e é essa que cabe agora a Portugal. Presidiremos a uma das sete (ou nove, com os comités consultivos) instituições da UE.
Mas, mesmo no estrito âmbito do Conselho da UE, quando se reúnem os Ministros dos Negócios Estrangeiros, este é presidido pelo Alto-Representante para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, que é também Vice-Presidente da Comissão Europeia (o espanhol Josep Borrell Fontelles). E a reunião do Eurogrupo - que já foi presidido por Mário Centeno -, também tem um presidente permanente (o irlandês Paschal Donohoe).
Não se pretende com esta nota desvalorizar a Presidência Portuguesa, que tem a sua importância e um programa com pontos interessantes e positivos, nomeadamente a realização da Cimeira Social do Porto, a 7 de Maio, afirmando a vontade de concretizar o Pilar Social da União Europeia. Nem se pretende desvalorizar o papel dos governantes, diplomatas e funcionários portugueses na condução dos trabalhos e reuniões que lhes competirá presidir.
Pretende-se, isso sim, alertar para o facto de que todo este tratamento jornalístico da Presidência rotativa do Conselho como se fosse a "Presidência da UE" é objectivamente errado, prestando portanto um mau serviço à população porque não a ajuda a compreender o funcionamento institucional da UE, já de si suficientemente complicado e difícil de compreender.
Mas, mais grave do que isso, este erro generalizado dos nossos meios de comunicação - muito provavelmente sem que tenham qualquer intenção de o fazer - acaba por ajudar aos intentos daqueles que pretendem uma maior governamentalização da UE, um maior protagonismo dos governos e do seu Conselho em detrimento do papel da Comissão e do Parlamento Europeu, um retrocesso político e institucional face a um movimento contrário que teve vencimento com a aprovação do Tratado de Lisboa. Como se refere no site oficial do Parlamento Europeu:
"O Tratado de Lisboa, que entrou em vigor no final de 2009, conferiu novos poderes legislativos ao Parlamento Europeu, colocando-o em pé de igualdade com o Conselho de Ministros no processo de tomada de decisões sobre o que a UE faz e a forma como o dinheiro é utilizado. Também alterou a forma como o Parlamento coopera com outras instituições, conferindo aos deputados ao PE um maior peso na condução da UE. Todas estas reformas garantem que o seu voto nas eleições europeias influa de forma ainda mais decisiva na escolha do rumo a seguir pela Europa."
Sugerir, subliminarmente que seja, que o Conselho de Ministros preside à União é pois, não só uma afronta ao Tratado, mas também contrário à recente evolução do projecto europeu no sentido de dar mais peso aos representantes directamente eleitos pelos povos. Os nossos jornalistas deveriam ter isso em conta quando usam a expressão factualmente errónea de "Presidência da União Europeia".
Previsões para 2021
Previsões para 2021
Eis-nos chegados àqueles dias em que nos são apresentadas as previsões para o novo ano que começa. É um momento empolgante, em que pessoas dotadas de poderes sobrenaturais nos revelam algo do que conseguem ver do nosso futuro e que não está acessível aos comuns e ignorantes mortais que somos quase todos. Porque não percebemos nada da grande ciência da astrologia e dos signos, podemos ter GPS no carro mas não temos um bom mapa astral, não sabemos, por exemplo, que Júpiter e Saturno formarão tensão em Úrano em Touro, o que pode propiciar inovações criativas e mesmo bons negócios on-line. Então não é tão bom saber que, em 2021, vamos conseguir libertar-nos definitivamente da conjunção de Saturno e Plutão que nos obrigou em 2020 a mudarmos os nossos hábitos e valores, mas que agora os astros permitem que comecemos uma metamorfose interior e que vejamos o mundo e a vida de uma outra forma?
Analfabetos da numerologia (matemáticos incluídos), ignoramos que tudo no Universo é feito de energia, até mesmo os números, cada número possuindo uma vibração energética específica, pela qual podemos conhecer melhor aqueles que nos rodeiam e assim tirar o melhor partido de cada situação.
Pobres de espírito que não sabemos que os 22 arcanos maiores do Tarot escondem os mais profundos segredos da natureza humana, as respostas a todas as questões da Humanidade.
Somos uns verdadeiros primatas, cujas mãos só servem para agarrar, acariciar, escrever, pintar ou tocar um instrumento, sem sequer suspeitarmos que a palma da nossa mão nos revela, através da quiromancia, uma ampla perspectiva do que o futuro nos reserva, se vamos ser felizes no amor, quantos filhos vamos ter, se podemos ter uma mudança drástica na nossa vida profissional ou um problema mais sério de saúde.
É claro que da saúde também se pode tratar com uma boa consulta de Reiki, que permite a qualquer pessoa sentir-se imediatamente melhor, mais leve, liberta dos problemas de saúde, ou sentindo pelo menos um alívio dos sintomas.
Para os mais materialistas, incrédulos do espírito, inclinados para coisas mais sólidas, há sempre o recurso aos cristais, verdadeiras pedras de toque cuja vibração energética ajuda a alinhar a vida com a abundância e a prosperidade, para que haja sempre um fluxo crescente de dinheiro na nossa vida. Dinheiro e não só, que há também cristais para melhorar a saúde, para desenvolver a vida amorosa ou para melhorar a vida profissional.
Para os mais espiritualistas e amantes da simplicidade, nada como um bom Pensamento Positivo, do tipo de que para sermos capazes de concretizar os nossos objectivos basta que verdadeiramente acreditemos em nós próprios, cheios de mindfullness e de força de vontade.
Mas mesmo aqueles a quem a lufa-lufa do dia-a-dia não deixa tempo nem paciência para todas estas artes divinatórias um bocado complexas, mesmo esses não devem desanimar, porque há sempre o recurso à prática mais simples da Cafeomancia, acessível em casa ou numa esplanada por cerca de um euro, pela qual se pode fazer a leitura e interpretação das borras de café que ficam na chávena, mostrando todos os desígnios que o futuro nos reserva. Depois de beber o café, segura-se a chávena pela asa, roda-se três vezes no sentido dos ponteiros do relógio e observam-se os desenhos que se formaram. Aí estará estampado, preto no branco, o que 2021 reserva a cada um.
É claro que, como explicam os especialistas, para que uma boa vidência, mediunidade, oráculo ou ritual funcione, temos de confiar no seu poder, estarmos dispostos a aceitar a ajuda do Universo, não a bloqueando devido ao medo ou a uma descrença. Quanto maior for a fé e a crença que se puser naquilo que se faz, maior é o seu poder e eficácia. Combinado, claro, com o cartão bancário que deve estar à mão para tornar a coisa mais rápida e simples.
Ouçamos, pois, o que nos irão dizer agora sobre 2021. Sem pensar muito no que os mesmos nos disseram, há precisamente um ano, sobre o que ia ser o maravilhoso ano de 2020.
E que falem à vontade porque, felizmente, os polígrafos e outros programas de verificação da verdade do que é dito em público não têm perdido muito tempo com este sector de actividade, talvez por acharem que não tem dignidade para ser escrutinado, talvez por o acharem inofensivo, talvez para não estragar um negócio tão popular e rentável, até mesmo para as televisões e para alguma imprensa tida como mais respeitável e mais dada ao fact-checking.
Há algum problema com isto?
Aparentemente, não há um grande problema com esta venda de banha da cobra que, apesar de ser uma actividade largamente espalhada na nossa sociedade, parece relativamente inócua, para além dos directamente lesados, claro.
Mas, tratando-se de uma óbvia burla, não deveria ser proibido andar a burlar incautos?
Em princípio, este crime já está previsto na lei, mas a decisão de proibir este tipo de burla teria imensas dificuldades e poderia mesmo ser uma emenda pior do que o soneto, atirando esta actividade para um mundo subterrâneo ou clandestino, eventualmente para a dark web, tornando-a mais opaca e logo mais difícil de controlar e combater.
A proibição seria uma medida totalmente errada - pouco liberal, alguns dirão -, embora se pudesse perceber a tentação num ano em que se comemoram os dois séculos da Revolução Liberal, pioneira em medidas radicais contra as mais destacadas formas organizadas de poder através das crenças.
Não, o fim do negócio e a libertação das vítimas destas operações de magia tem de seguir outro caminho. O caminho da escola, da instrução, do pensamento, da cultura, da lógica, da exigência de rigor intelectual. Este tipo de crendices não pode ser abolido, tem de extinguir-se por falta de clientes.
Lembram-se do florescente comércio de relíquias da terra santa, tão magistralmente glosado por Eça de Queiroz e que era um problema real na sua época? Pois bem, hoje não temos notícia de que o comércio continue. Não é que dos bosques de Jerusalém não se pudessem retirar mais umas toneladas de fragmentos verdadeiros da cruz que Cristo carregou para o Calvário; deixou foi de haver compradores para eles.
E é precisamente porque este tem de ser o caminho, que o facto de televisões, revistas e jornais considerados sérios e credíveis continuarem a dar guarida a este tipo de actividade de bruxaria se revela particularmente nocivo. Porque funciona como caução, como atestado de respeitabilidade, como apoio implícito à consideração de que se trata de assuntos dignos de consideração pelos leitores e espectadores. É um bom serviço comercial prestado aos traficantes, mas um mau serviço prestado ao necessário amadurecimento intelectual do povo português.
Mais grave ainda se torna essa relaxada posição dos media responsáveis, neste momento em que a nossa sociedade sofre uma inundação de maliciosas notícias falsas (fake news) através de redes sociais mais ou menos incontroláveis, falsidades contra as quais a única protecção verdadeiramente eficaz será o juízo crítico do próprio leitor.
Analisem-se essas notícias falsas e compreender-se-á que são, na generalidade, muito mais lógicas e plausíveis do que tudo o que se promete conseguir com as técnicas de vidência e previsão referidas no início deste texto. É mais fácil acreditar no absurdo de que as torres de telecomunicações espalham corona vírus nas ondas dos telemóveis 5G do que no ainda mais absurdo facto de o nosso futuro estar descrito antecipadamente nas cartas de qualquer maga, nas borras da chávena de café ou em qualquer conjugação de corpos celestes.
Para um povo habituado desde sempre a engolir o poder mágico de signos, búzios e quejandos, as fake news mais absurdas serão apenas a piece of cake. Esse é o problema.
Manuel António Pina e a publicidade da Apple
[ Elementos retirados de um velho fotolito K (preto) de uma peça em CMYK (quadricromia) ]
Uma outra razão por que no Norte não temos respeito pela TAP
26 de Abril de 1974
CDS - O original e as cópias
1 de Dezembro é dia de agradecer à Catalunha
Em parte é graças aos catalães e à sua luta que tivemos condições para recuperar a nossa independência.
Uma lembrança muito antiga do José Mário Branco, no dia da sua morte
Aqui estou com o Zé Mário Branco, o Mário Brochado Coelho, o Óscar Felgueiras e uma camarada de que não me lembro hoje o nome (ajuda agradece-se), quando andávamos a trabalhar nas obras de construção de alguns alicerces da grande casa comum, que hoje já tem um rés-do-chão amplo e arejado, cheio de portas e janelas.
Primeiro boletim da organização em que militava o Zé Mário (e eu também), de Agosto de 1974, e que foi uma das três organizações promotoras da UDP no final desse mesmo ano.
Manuel António Pina - um texto publicitário
Esta é uma peça de uma das muitas campanhas publicitárias que fiz com o Pina e que inclui um pequeno texto da sua autoria.
Esta campanha de 1991 foi feita, como várias outras, em colaboração com o pintor e escultor José de Guimarães.






























































