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100 anos da Tuna Musical de Santa Marinha

A Tuna Musical de Santa Marinha, uma das mais importantes e históricas associações populares de Vila Nova de Gaia, está a comemorar o seu centenário.

Aproveito o momento comemorativo para partilhar com os leitores alguns documentos com meio século, do tempo em que a TMSM comemorou o seu cinquentenário, que ocorreu num ano altamente marcante na vida da instituição porque começou em pleno fascismo e acabou em plena liberdade, alterando drasticamente as condições em que se desenvolviam as suas muitas actividades.

Uma dessas actividades era a edição regular de um Boletim Interno, que se distribuía aos associados, uma publicação periódica que não submetíamos aos serviços de censura, o que criava uma situação potencialmente interessante, mas delicada. (1)


 Eu colaborava regularmente nesse Boletim e tinha combinado com o Presidente, Zé da Micha (José Marques Monteiro) e com o chefe de redacção, Fernando Peixoto — dois amigos que conhecia de reuniões bastante discretas de um núcleo da Oposição Democrática em Gaia —, que era melhor não assinar com o meu nome por causa da PIDE que andava demasiado atenta ao que eu fazia na vida, sobretudo depois de eu ter sido posto fora da Universidade e proibido de estudar em todos os estabelecimentos de ensino de Portugal e colónias. Assinaria portanto “Manel”, simplesmente. Na altura havia uma radio-novela de grande sucesso que era o “Simplesmente Maria”, eu seria o simplesmente Manel; eles acharam piada à coisa e assim fizemos.


Outra das actividades da Tuna em que colaborava era o grupo de Teatro. Mesmo antes do 25 de Abril estávamos a ensaiar o “Felizmente há luar” do Luís de Stau Monteiro, dirigidos pelo Fernando Peixoto. Mas tínhamos já o projecto de representar “As mãos de Abraão Zacut” com encenação de Artur Almeida. Deixo-vos aqui uma interessante entrevista feita sobre este assunto e publicada no Boletim em Fevereiro de 1974. O entrevistador é o Fernando Peixoto e o entrevistado o Artur Almeida.

É interessante notar a preocupação de há meio século relativa ao conflito entre Israel e a Palestina.




Fica aqui também, como curiosidade, o requerimento ao Director de Serviços de Espectáculos (que eu tinha escrito e o Presidente tinha assinado) pedindo autorização para levarmos à cena esta peça. Está datado de 20 de Abril de 1974. Fi-lo no fim de semana, mas nunca o entreguei porque na quinta-feira seguinte o teatro passou a ser livre e a não precisar nunca mais de “autorização superior”. 


Tudo mudou nesse ano. Deixo-vos também um comunicado da Direcção da Tuna do primeiro sábado de liberdade, dia 27, a convocar a sua “massa associativa e o Povo da Beira-Rio” para irem “TODOS À TUNA”.


E, por fim, deixo-vos uma significativa primeira página do Boletim de Setembro de 1974 sobre o carácter popular da Tuna e uma notícia das comemorações do cinquentenário, já feitas em liberdade.

 





(1) Nessa mesma época, houve em Gaia outras publicações periódicas que não eram submetidas à censura. Duas delas, os jornais “A Semente” e “Perspectiva”, podem ser encontrados aqui.

Morreu o grande deputado que o Porto nunca teve

Morreu Mário Brochado Coelho, eminente advogado e democrata portuense, símbolo enorme de coragem e coerência antifascista. Outros falarão do seu notável percurso de vida e da importância que teve a vários títulos. Conheci-o bem e longos anos trabalhei com ele nas causas que partilhámos. Mas hoje queria só lembrar o grande deputado que o Porto nunca teve. Apresentámos o seu nome como cabeça de lista em eleições para o Parlamento. Sabíamos que seria sem dúvida uma das figuras mais marcantes da Assembleia da República. Mas nunca foi eleito. E essa é uma falha grave no currículo. Não do Mário Brochado Coelho, cujo currículo notável não precisava disso para nada. Mas sim no currículo dos eleitores do distrito do Porto, sobretudo dos eleitores democratas e progressistas que lhe faltaram com o seu voto sem saberem o que estavam a perder. Em momento pré-eleitoral, faço votos de que a memória desta falha, que não vamos a tempo de reparar, possa ser um instrumento útil para a vossa reflexão.

E se nos juntássemos todos para comprar a “Galeria Abel Salazar”?

 




Jornal Público de 26 de Agosto. de 2023



Um desafio


Há um desafio muito concreto que gostaria de deixar aos leitores deste texto e à sociedade em geral, muito especialmente aos portuenses e a todas as pessoas que se interessam pela cultura e pelo património.


Um dos cafés mais interessantes do Porto morreu. Hoje, felizmente, ainda temos o Majestic, o Guarany, o Ceuta e outros, mas este morreu há muito. Era o Café Rialto, na esquina da rua de Sá da Bandeira com a praça de D. João I, ponto de encontro de artistas e intelectuais. Foi inaugurado em 1944, pleno de obras de arte. Quando fechou, as obras de arte foram retiradas. Todas menos uma, que era inamovível: uma enorme pintura mural com 5 metros de largura e mais de 3 metros de altura, uma obra prima do grande mestre Abel Salazar a que este chamou “Síntese da História”. 


O espaço foi tendo outros usos. Como muitos outros espaços da baixa, um dia foi uma dependência bancária, mas o mural lá estava, magnífico, cobrindo toda a parede de fundo.

Hoje é uma loja. Para optimizar o espaço, a pintura foi totalmente coberta com uma parede que permitiu colocar mais umas quantas prateleiras. Esta é a triste situação actual.


Podemos fazer alguma coisa em relação a isto? 

Penso que sim, que podemos e devemos. Mas fazer o quê?



Uma solução


A solução mais simples e rápida, respeitadora de todas as leis e normas vigentes, seria comprarmos aquele espaço. Comprarmos o espaço e oferecê-lo à Casa Museu Abel Salazar. 


A Casa Museu, uma instituição de grande mérito, com um acervo fabuloso e uma actividade a todos os títulos meritória, é propriedade da Universidade do Porto. Situa-se em S. Mamede de Infesta, relativamente distante do centro do Porto.


Com este espaço, poderia passar a ter um pequeno pólo na baixa da cidade, dando maior visibilidade à obra de Abel Salazar junto do grande público. Talvez se possa chamar “Galeria Abel Salazar”. É um bom local para ter pequenas exposições temporárias em que se pode ir mostrando as várias facetas da produção do artista, uma loja onde as várias edições da Casa se disponibilizam, e tudo com o esplendor de uma parede de fundo monumental com uma pintura que apenas ali pode ser vista.



Modus operandi


Não seria certamente difícil encontrar um mecenas que pudesse fazer a aquisição do espaço (é apenas uma loja), mas a minha proposta é outra. O Porto tem tradição de fazer homenagens - erguer estátuas, por exemplo - através de subscrições públicas. É um modo activo de afirmação de cidadania que nos caracteriza e diz muito da sociedade que somos e queremos ser. Uma subscrição pública para resgatar o mural de Abel Salazar seria em si mesmo uma bela homenagem a um homem que a cidade já homenageou comparecendo em massa no seu funeral, em afrontamento directo com a ditadura, já homenageou com uma estátua, já deu o seu nome a uma das escolas da Universidade do Porto. Abel Salazar ficaria certamente emocionado ao saber que a compra deste espaço com a sua pintura foi um acto colectivo e popular.


É claro que na subscrição pública contaremos não só com o cidadão que empenhadamente contribuirá com uns poucos de euros retirados do seu magro salário ou pensão, mas também com o contributo dos bancos e das empresas, do Ministério da Cultura e da Gulbenkian, da Câmara e das associações empresariais, das fundações e dos mecenas.


O ideal seria que, para receber directamente as contribuições, fosse aberta uma conta especial da Casa Museu ou da sua Associação para este efeito, pormenor a decidir pela própria Casa Museu, pela Universidade e pelo seu Reitor.


A Câmara Municipal poderia ter um papel importante no contacto com o actual proprietário do espaço e na negociação das condições da transação.


Talvez que a Faculdade de Arquitectura possa assumir o projecto de remodelação do espaço e as Belas Artes da sua divulgação.


Se sobrar algum dinheiro da subscrição após a aquisição (e esperemos que sobre), será para apoiar as actividades da galeria, a primeira das quais poderia ser a edição de um livro com a história desta subscrição pública e o nome de todos os que contribuíram, a quem seria oferecido um exemplar como agradecimento.



O Porto é capaz


Enfim, o que se pretende é uma mobilização geral de vontades e de capacidades de uma cidade que já mostrou que o sabe fazer sempre que é preciso. 


O Coliseu está aí para o comprovar e foi uma conquista muito mais difícil do que será a pequena “Galeria Abel Salazar”. Ou o Bolhão. Ou o Batalha, que esteve quase morto e hoje brilha de novo. Se conseguimos salvar o grande mural de Júlio Pomar que o velho fascismo tapou, não deixaremos certamente de salvar também o de Abel Salazar que o moderno comércio tapou.






O TURISTA E O BALÃO Uma história de proveito e exemplo

O TURISTA E O BALÃO

Uma história de proveito e exemplo 


O balão de S. João é um objecto voador não tripulado com uma chama acesa. Dizem os técnicos (e é sempre prudente acreditar nos técnicos) que pode constituir um perigo para a aviação. Ora, é a aviação que nos traz os turistas, que sustentam a nossa economia.


Postos perante o dilema: o balão ou o avião, as autoridades, mais concretamente a Autoridade Nacional de Aviação Civil decidiu "fechar o espaço aéreo do Porto durante o período previsto de maior intensidade de lançamento". E o nosso céu lá se encheu outra vez de balões, deixando os aeroturistas à espera.


É bom que, uma vez ou outra, possamos ter uma notícia como esta para não perdermos o que nos resta da esperança na construção de um país decente e que se dê ao respeito. 


E o que é que os turistas terão pensado disto? Não sei se foi feito algum inquérito, por isso limito-me a especular. Talvez tenham pensado que o Porto é uma terra que vale mesmo a pena visitar, já que tem tradições tão fortes que até param a aviação, uma das indústrias mais poderosas do planeta. Nesse sentido, esta decisão de deixar os turistas à espera pode ter sido, paradoxalmente, muito boa para o turismo, ao valorizar simbolicamente a força e originalidade das tradições culturais deste "destino".


Da mesma forma poderia funcionar a existência de certas zonas nas nossas cidades onde os turistas nunca pudessem alojar-se, porque eram zonas tão típicas e tão autênticas que só os locais as poderiam habitar. 


É claro que na lógica primária dos turistólatras e das gentes do negócio fácil, isto seria um ataque ao turismo, a nossa galinha dos ovos de ouro. Numa perspectiva mais estratégica - para além dos fundamentos urbanísticos e sociais da solução -, isto acabaria por ser uma valorização permanente e duradoura do interesse turístico das nossas cidades, logo, um factor real de desenvolvimento do turismo de qualidade. 


Já agora, convém não confundir o conceito "turismo de qualidade" com a utilização perversa (e um bocado bacoca) que a indústria e a comunicação social fazem desta expressão, identificando-a com turismo caro para viajantes ricos. 


Não é a mesma coisa. Pode haver muita falta de qualidade no turismo dos ricos e muita qualidade no turismo de preços mais baixos (estou certo, e apenas para dar um exemplo, que qualquer gastrónomo exigente já deve ter vivido em Portugal experiências que o comprovem). Se o preço fosse medida de qualidade, a viagem turística mais qualificada do momento seria no submarino Titan...


O turismo de qualidade - e isto não tem nada a ver com o preço - é aquele que respeita e não agride, nem prejudica, nem descaracteriza os sítios que visita, antes reconhece e valoriza as características que os tornam únicos e portanto interessantes para serem visitados. 


Como o Porto com os seus balões de S. João que os fizeram esperar nos aeroportos. 

O nosso turismo está a precisar de mais algumas decisões com esta lógica só aparentemente contraditória.

UM REGRESSO (a pedido) ao Manuel António Pina

Um regresso (feito a pedido) a memórias incompletas de algumas actividades realizadas em conjunto com o Manuel António Pina.


Tem aqui o link para o pdf:

Um regresso

Todos pelo Coliseu

Numa altura em que se volta a falar sobre o futuro deste espaço tão cheio de história e de significado, trago-vos à memória o cartaz feito para a campanha daqueles dias difíceis de 1995, em que o Coliseu esteve quase a mudar de vida. 

Foi uma grande vitória, que os nossos irmãos lisboetas infelizmente não conseguiram com o seu Cinema Império. E vitórias destas contra as várias formas do capital selvagem e predador, no campo das políticas urbanas e da cultura, não abundam no nosso historial. Por isso a valorizamos tanto. 

Nota: O cartaz é da autoria do José Rodrigues e do Humberto Nelson, que se empenharam pro-bono nesta luta, como aliás todos os que organizámos o espectáculo, bem como todos os artistas que nele participaram. Foi por amor, foi por convicção, foi por revolta, foi por necessidade. Não nos peçam agora para olharmos para o Coliseu com o olhar frio dos negócios e a sua cruel racionalidade.

No centenário de Isolino Vaz


 

ALGUMAS MEMÓRIAS E A HISTÓRIA DE UM RETRATO


Neste ano de 2022, comemora-se o centenário do nascimento do mestre Isolino Vaz, artista plástico com uma obra muito diversificada e altamente qualificada que, pela sua vastidão, se encontra dispersa pelo país e não só.


Foi com imenso agrado que tive conhecimento de que a família e algumas instituições a que esteve ligado estão a preparar um programa de eventos comemorativos.

É com todo o gosto e alguma emoção que tento contribuir para essa justa homenagem, registando aqui algumas memórias pessoais, já um pouco desfocadas pela neblina de meio século de distância.


No início da década de 60, em Vila Nova de Gaia, na antiga quinta do Cabo Mor, junto ao Jardim Soares dos Reis, tomava forma um pequeno loteamento em frente à Escola Industrial e Comercial de Gaia (hoje Escola Secundária António Sérgio). É um pequeno “rectângulo” com três ruas e trinta vivendas. Aí construiu a família Vaz a sua casa, na rua do meio, a rua Tristão Vaz. Na minha opinião, era a mais bonita, a mais encantadora das trinta, cheia de obras de arte, que me encantava sempre que lá ia e o meu olhar se perdia a descobrir todos os pormenores. 


Aquele era o nosso bairro, onde se gerou um certo sentido de comunidade, criado e consolidado pelos mais novos, com mais facilidade de se relacionarem pelas brincadeiras, pelos jogos, pelos namoros, por crescerem e evoluírem juntos naquela idade onde se descobrem tantas coisas novas. Tão forte era esse sentido de comunidade que ganhou forma numa associação: a AJCM, Associação da Juventude de Cabo Mor, com logotipo e crachat e tudo, associação em que participavam o Mário e a Elsa (filhos de Isolino) e que desenvolveu um grande leque de iniciativas em que envolvemos também os pais, Isolino Vaz incluído.



Isolino era da idade dos meus pais, eu sou da geração dos seus filhos. Foi nessa época que o mestre, vendo o meu interesse pela arte, particularmente pela sua arte, sobre a qual me falava tantas vezes, me pediu para ser seu ajudante nas inúmeras palestras que fazia e que ilustrava abundantemente com obras suas. Não havendo ainda projecções de “power points” ou de “keynotes”, levávamos os desenhos e pinturas ordenadas em grandes pastas, montávamos um cavalete no palco ou junto à mesa, e a minha nobre missão nas palestras era carregar as coisas e depois ir substituindo as obras pela ordem certa, de acordo com o fluir do discurso do orador, que as comentava uma a uma.


Com o meu envolvimento político na luta antifascista, no fim dos anos 60, houve mais uma implícita cumplicidade que se estabeleceu com o pintor. Foi tudo isso que me levou, anos mais tarde, a ganhar coragem para fazer ao mestre a encomenda de uma obra.


Acabado o meu curso de Engenharia, em 1977, senti-me mais livre para abraçar novos desafios. Com alguns amigos, aventurei-me a abrir uma livraria, um sonho muito comum entre quem ama os livros. Arrendámos um espaço na Rua dos Mártires da Liberdade e decidi chamar-lhe Livraria Bento de Jesus Caraça, pela grande admiração que tinha pelo matemático, pelo político e pelo seu exemplo de cidadão.


Em 25 de Junho de 1978 passavam 30 anos sobre a sua morte. Houve comemorações em Lisboa e noutros locais. No Porto, foi a Livraria que organizou as comemorações. 

O nosso programa incluiria uma grande sessão evocativa, que foi realizada em Belas Artes, com testemunhos de vários companheiros do homenageado, sessão em que se faria o lançamento de uma edição comemorativa de um retrato. 


Dada a amizade que tinha com Isolino Vaz, fui lá a casa pedir-lhe para fazer o retrato. Pela forma simpática e até entusiasmada como recebeu o meu pedido, acho que ficou contente com a incumbência, apesar de não haver qualquer pagamento previsto da minha parte (todos trabalhámos pro-bono na realização daquelas comemorações). Penso que aceitou porque Isolino admirava Bento de Jesus Caraça tanto como eu.


Fez um desenho a carvão, numa folha de 70x100 cm, se bem me lembro. Fizemos a reprodução na velha Inova, Artes Gráficas, na rua de Gonçalo Cristóvão, no Porto, uma edição litográfica com 32,5x47,5 cm. (1)


Pouco depois, em Setembro de 1978, tive de ir para a tropa e de deixar a livraria entregue aos meus amigos, tendo esta vivido um tempo conturbado, acabando vendida à Cooperativa Erva Daninha e fechada a seguir. Essa história não cabe aqui e só a menciono para dizer que nesse processo desapareceu (pelo menos da minha vista) o original do retrato que eu tinha encomendado a mestre Isolino e que tínhamos pendurado na parede da livraria. Imagino que o original da obra ainda exista, espero que não tenha sido destruído.



(1) A Biblioteca Municipal de Gaia tem um exemplar e a associação Amigos de Gaia também. Muito perto do local onde era a livraria Bento de Jesus Caraça, na rua Mártires da Liberdade, o alfarrabista Homem dos Livros (no número 79) tem à venda esta litografia.


Resposta a um pedido (e a Feira do Livro)

Como alguns amigos já terão reparado, tenho andado em campanha. Já fiz oito intervenções públicas partilhando ideias e reflexões sobre a política e as autarquias.

Tendo-me sido pedido que publicasse essas notas, ocupei abusivamente mais de 60 páginas deste livro com isso. Espero que sejam úteis para os leitores e aguardo as vossas críticas demolidoras, para ver se aprendo alguma coisa, que bem estou a precisar.

O livro está disponível na Feira do Livro do Porto, no stand 95 da livraria Traga Mundos. Ou pode ser pedido à editora em: furarocerco@gmail.com.










Presidência portuguesa da União Europeia?



Nestes primeiros dias do ano de 2021, todos os meios de comunicação têm dado grande e justificado destaque à presidência portuguesa que agora começa.

Mas há um problema para o qual queria chamar a vossa atenção: os títulos de jornais e rodapés televisivos em que se refere a "Presidência portuguesa da União Europeia" são completamente desadequados e isso tem alguma gravidade que pode passar despercebida. Por duas razões.

A primeira e mais elementar é porque são falsos. Portugal não tem a Presidência da União Europeia porque isso não existe, a União Europeia pura e simplesmente não tem Presidência, nem Presidente. Portugal tem um Presidente, os Estados Unidos também, a União Europeia não tem. E isso não é um acaso nem um pormenor. Foi uma opção bastante ponderada, muito discutida e, penso eu, bastante sensata. 

É claro que há muitas Presidências na UE já que as suas instituições são: 

– o Parlamento Europeu

– o Conselho Europeu
– o Conselho

– a Comissão Europeia 

– o Tribunal de Justiça da União Europeia
– o Banco Central Europeu
– o Tribunal de Contas. 

O Parlamento Europeu, o Conselho e a Comissão são ainda assistidos por um Comité Económico e Social e por um Comité das Regiões, que exercem funções consultivas.

Ora, e falando só nas principais instituições políticas da UE, o Parlamento Europeu tem o seu Presidente (o italiano David-Maria Sassoli), o Conselho Europeu tem o seu Presidente (o belga Charles Michel), a Comissão Europeia tem a sua Presidente (a alemã Ursula von der Leyen) e só o Conselho (ou Conselho da UE ou Conselho de Ministros) tem uma Presidência rotativa e é essa que cabe agora a Portugal. Presidiremos a uma das sete (ou nove, com os comités consultivos) instituições da UE.

Mas, mesmo no estrito âmbito do Conselho da UE, quando se reúnem os Ministros dos Negócios Estrangeiros, este é presidido pelo Alto-Representante para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, que é também Vice-Presidente da Comissão Europeia (o espanhol Josep Borrell Fontelles). E a reunião do Eurogrupo - que já foi presidido por Mário Centeno -, também tem um presidente permanente (o irlandês Paschal Donohoe).

Não se pretende com esta nota desvalorizar a Presidência Portuguesa, que tem a sua importância e um programa com pontos interessantes e positivos, nomeadamente a realização da Cimeira Social do Porto, a 7 de Maio, afirmando a vontade de concretizar o Pilar Social da União Europeia. Nem se pretende desvalorizar o papel dos governantes, diplomatas e funcionários portugueses na condução dos trabalhos e reuniões que lhes competirá presidir.

Pretende-se, isso sim, alertar para o facto de que todo este tratamento jornalístico da Presidência rotativa do Conselho como se fosse a "Presidência da UE" é objectivamente errado, prestando portanto um mau serviço à população porque não a ajuda a compreender o funcionamento institucional da UE, já de si suficientemente complicado e difícil de compreender.

Mas, mais grave do que isso, este erro generalizado dos nossos meios de comunicação - muito provavelmente sem que tenham qualquer intenção de o fazer - acaba por ajudar aos intentos daqueles que pretendem uma maior governamentalização da UE, um maior protagonismo dos governos e do seu Conselho em detrimento do papel da Comissão e do Parlamento Europeu, um retrocesso político e institucional face a um movimento contrário que teve vencimento com a aprovação do Tratado de Lisboa. Como se refere no site oficial do Parlamento Europeu:

"O Tratado de Lisboa, que entrou em vigor no final de 2009, conferiu novos poderes legislativos ao Parlamento Europeu, colocando-o em pé de igualdade com o Conselho de Ministros no processo de tomada de decisões sobre o que a UE faz e a forma como o dinheiro é utilizado. Também alterou a forma como o Parlamento coopera com outras instituições, conferindo aos deputados ao PE um maior peso na condução da UE. Todas estas reformas garantem que o seu voto nas eleições europeias influa de forma ainda mais decisiva na escolha do rumo a seguir pela Europa."

Sugerir, subliminarmente que seja, que o Conselho de Ministros preside à União é pois, não só uma afronta ao Tratado, mas também contrário à recente evolução do projecto europeu no sentido de dar mais peso aos representantes directamente eleitos pelos povos. Os nossos jornalistas deveriam ter isso em conta quando usam a expressão factualmente errónea de "Presidência da União Europeia".


Alguns maus exemplos:









 Um bom exemplo:


No dia 9 de Janeiro de 2021, o Provedor do Leitor do Público, José Manuel Barata-Feyo, publicou parte deste comentário (que lhe tinha enviado). 
Na sequência da chamada de atenção do Provedor, o Público alterou o seu cabeçalho desta maneira:


Parabéns ao Público.



Previsões para 2021

 


Previsões para 2021

Eis-nos chegados àqueles dias em que nos são apresentadas as previsões para o novo ano que começa. É um momento empolgante, em que pessoas dotadas de poderes sobrenaturais nos revelam algo do que conseguem ver do nosso futuro e que não está acessível aos comuns e ignorantes mortais que somos quase todos. Porque não percebemos nada da grande ciência da astrologia e dos signos, podemos ter GPS no carro mas não temos um bom mapa astral, não sabemos, por exemplo, que Júpiter e Saturno formarão tensão em Úrano em Touro, o que pode propiciar inovações criativas e mesmo bons negócios on-lineEntão não é tão bom saber que, em 2021, vamos conseguir libertar-nos definitivamente da conjunção de Saturno e Plutão que nos obrigou em 2020 a mudarmos os nossos hábitos e valores, mas que agora os astros permitem que comecemos uma metamorfose interior e que vejamos o mundo e a vida de uma outra forma?

 

Analfabetos da numerologia (matemáticos incluídos), ignoramos que tudo no Universo é feito de energia, até mesmo os números, cada número possuindo uma vibração energética específica, pela qual podemos conhecer melhor aqueles que nos rodeiam e assim tirar o melhor partido de cada situação.

 

Pobres de espírito que não sabemos que os 22 arcanos maiores do Tarot escondem os mais profundos segredos da natureza humana, as respostas a todas as questões da Humanidade.

 

Somos uns verdadeiros primatas, cujas mãos só servem para agarrar, acariciar, escrever, pintar ou tocar um instrumento, sem sequer suspeitarmos que a palma da nossa mão nos revela, através da quiromancia, uma ampla perspectiva do que o futuro nos reserva, se vamos ser felizes no amor, quantos filhos vamos ter, se podemos ter uma mudança drástica na nossa vida profissional ou um problema mais sério de saúde.

 

É claro que da saúde também se pode tratar com uma boa consulta de Reiki, que permite a qualquer pessoa sentir-se imediatamente melhor, mais leve, liberta dos problemas de saúde, ou sentindo pelo menos um alívio dos sintomas. 

 

Para os mais materialistas, incrédulos do espírito, inclinados para coisas mais sólidas, há sempre o recurso aos cristais, verdadeiras pedras de toque cuja vibração energética ajuda a alinhar a vida com a abundância e a prosperidade, para que haja sempre um fluxo crescente de dinheiro na nossa vida. Dinheiro e não só, que há também cristais para melhorar a saúde, para desenvolver a vida amorosa ou para melhorar a vida profissional.

 

Para os mais espiritualistas e amantes da simplicidade, nada como um bom Pensamento Positivo, do tipo de que para sermos capazes de concretizar os nossos objectivos basta que verdadeiramente acreditemos em nós próprios, cheios de mindfullness e de força de vontade.

 

Mas mesmo aqueles a quem a lufa-lufa do dia-a-dia não deixa tempo nem paciência para todas estas artes divinatórias um bocado complexas, mesmo esses não devem desanimar, porque há sempre o recurso à prática mais simples da Cafeomancia, acessível em casa ou numa esplanada por cerca de um euro, pela qual se pode fazer a leitura e interpretação das borras de café que ficam na chávena, mostrando todos os desígnios que o futuro nos reserva. Depois de beber o café, segura-se a chávena pela asa, roda-se três vezes no sentido dos ponteiros do relógio e observam-se os desenhos que se formaram. Aí estará estampado, preto no branco, o que 2021 reserva a cada um.

 

É claro que, como explicam os especialistas, para que uma boa vidência, mediunidade, oráculo ou ritual funcione, temos de confiar no seu poder, estarmos dispostos a aceitar a ajuda do Universo, não a bloqueando devido ao medo ou a uma descrença. Quanto maior for a fé e a crença que se puser naquilo que se faz, maior é o seu poder e eficácia. Combinado, claro, com o cartão bancário que deve estar à mão para tornar a coisa mais rápida e simples.

 

Ouçamos, pois, o que nos irão dizer agora sobre 2021. Sem pensar muito no que os mesmos nos disseram, há precisamente um ano, sobre o que ia ser o maravilhoso ano de 2020. 

 

E que falem à vontade porque, felizmente, os polígrafos e outros programas de verificação da verdade do que é dito em público não têm perdido muito tempo com este sector de actividade, talvez por acharem que não tem dignidade para ser escrutinado, talvez por o acharem inofensivo, talvez para não estragar um negócio tão popular e rentável, até mesmo para as televisões e para alguma imprensa tida como mais respeitável e mais dada ao fact-checking.

 

 

 

Há algum problema com isto?

 

Aparentemente, não há um grande problema com esta venda de banha da cobra que, apesar de ser uma actividade largamente espalhada na nossa sociedade, parece relativamente inócua, para além dos directamente lesados, claro.

 

Mas, tratando-se de uma óbvia burla, não deveria ser proibido andar a burlar incautos? 

Em princípio, este crime já está previsto na lei, mas a decisão de proibir este tipo de burla teria imensas dificuldades e poderia mesmo ser uma emenda pior do que o soneto, atirando esta actividade para um mundo subterrâneo ou clandestino, eventualmente para a dark web, tornando-a mais opaca e logo mais difícil de controlar e combater. 

 

A proibição seria uma medida totalmente errada - pouco liberal, alguns dirão -, embora se pudesse perceber a tentação num ano em que se comemoram os dois séculos da Revolução Liberal, pioneira em medidas radicais contra as mais destacadas formas organizadas de poder através das crenças. 

 

Não, o fim do negócio e a libertação das vítimas destas operações de magia tem de seguir outro caminho. O caminho da escola, da instrução, do pensamento, da cultura, da lógica, da exigência de rigor intelectual. Este tipo de crendices não pode ser abolido, tem de extinguir-se por falta de clientes.

 

Lembram-se do florescente comércio de relíquias da terra santa, tão magistralmente glosado por Eça de Queiroz e que era um problema real na sua época? Pois bem, hoje não temos notícia de que o comércio continue. Não é que dos bosques de Jerusalém não se pudessem retirar mais umas toneladas de fragmentos verdadeiros da cruz que Cristo carregou para o Calvário; deixou foi de haver compradores para eles.

 

E é precisamente porque este tem de ser o caminho, que o facto de televisões, revistas e jornais considerados sérios e credíveis continuarem a dar guarida a este tipo de actividade de bruxaria se revela particularmente nocivo. Porque funciona como caução, como atestado de respeitabilidade, como apoio implícito à consideração de que se trata de assuntos dignos de consideração pelos leitores e espectadores. É um bom serviço comercial prestado aos traficantes, mas um mau serviço prestado ao necessário amadurecimento intelectual do povo português. 

 

Mais grave ainda se torna essa relaxada posição dos media responsáveis, neste momento em que a nossa sociedade sofre uma inundação de maliciosas notícias falsas (fake news) através de redes sociais mais ou menos incontroláveis, falsidades contra as quais a única protecção verdadeiramente eficaz será o juízo crítico do próprio leitor.

 

Analisem-se essas notícias falsas e compreender-se-á que são, na generalidade, muito mais lógicas e plausíveis do que tudo o que se promete conseguir com as técnicas de vidência e previsão referidas no início deste texto. É mais fácil acreditar no absurdo de que as torres de telecomunicações espalham corona vírus nas ondas dos telemóveis 5G do que no ainda mais absurdo facto de o nosso futuro estar descrito antecipadamente nas cartas de qualquer maga, nas borras da chávena de café ou em qualquer conjugação de corpos celestes. 

 

Para um povo habituado desde sempre a engolir o poder mágico de signos, búzios e quejandos, as fake news mais absurdas serão apenas a piece of cake. Esse é o problema.