Universidade do Porto - na inauguração da placa de homenagem aos estudantes




30 de Junho de 2017
Edifício da Reitoria da Universidade do Porto
Inauguração de uma placa alusiva às lutas estudantis
Intervenção de Renato Soeiro

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Magnífico Reitor e estimado colega da Faculdade de Engenharia
Senhor Presidente do Conselho Geral da Universidade do Porto
Colegas
Camaradas
Minhas senhoras e meus senhores

Eu não falarei por mim, mas por todas as gerações de estudantes do Porto que, de 1926 a 1974 - como diz a placa - lutaram e deram o seu melhor e prejudicaram as suas vidas na luta pela liberdade e pela democracia, enquanto outros se resignavam, fingiam que não viam nada e tratavam afincadamente da sua vidinha.
Muitos desses, que viraram a cara à luta pela democracia quando ela era mais necessária, vemo-los hoje a encherem a boca com discursos sobre a liberdade e a democracia, mas essa é, provavelmente, apenas uma outra forma (agora mais moderna) de continuarem a tratar da sua vidinha.

Em 1974 eu não estudava aqui.
Tinha sido excluído da frequência em Maio de 73, através de um processo movido pela Reitoria com base numa lei de 1932, uma velha lei da ditadura, anterior mesmo ao Estado Novo e à sua Constituição fascista de 33. Salazar ainda não era sequer o chefe do governo, embora o seu nome conste, com os outros ministros, na assinatura desta lei.

E, para aplicar esta tão antiga lei contra os estudantes, a Reitoria, nesse mesmo mês de Maio de 73 em que começou o meu processo, contratou os serviços externos de uma dupla absolutamente sinistra: o advogado Dr. Fernando de Matos e seu ajudante Delfim de Barros Gomes.
Foram eles que instruíram o meu processo e os de tantos outros colegas, que nos ouviram, que nos notificaram, e faziam-no em papel timbrado da Reitoria, apesar de se tratar de uma forma de gestão da repressão em regime de outsourcing.

Esse advogado ganhava nesta Universidade, para fazer este papel de repressão dos estudantes, mais do dobro do que ganhavam os catedráticos, e o seu desqualificado ajudante mais do que os professores assistentes. O que está certo: para o regime, reprimir tinha mais valor do que ensinar.

Para processar os honorários destes dois senhores, no fim do ano de 73 - os honorários de Maio a Dezembro -, foi preciso o ministro Veiga Simão enviar um reforço de verba para esta nossa Universidade, despachado disfarçadamente como financiamento para "expansão do Ensino Superior".

E querem saber a melhor? A seguir ao 25 de Abril, este senhor Dr. Fernando de Matos teve a distinta lata de processar a Universidade do Porto para que lhe pagasse - a si e ao seu ajudante - os honorários devidos pela instrução dos processos contra os estudantes entre Janeiro e Abril de 74, dando-se até ao luxo de se aumentar a si próprio para mais do triplo do vencimento de um catedrático e ao ajudante para mais do que ganhava um professor auxiliar.

Só que nessa altura o reitor já era Ruy Luís Gomes e o vice-reitor era José Morgado, também eles antigas vítimas do fascismo universitário, e deram-lhe obviamente a resposta que merecia.

Mas a Reitoria do tempo do fascismo não se limitava a estes processos académicos.
Recolhiam os papéis que nós aqui distribuíamos, punham os vigilantes a escutar-nos e depois mandavam os contínuos da Universidade levar essa informação ao Governo Civil, ali na Batalha, para instruir processos policiais, que se somavam e completavam os processos académicos.

Muitos de nós fomos levados a julgamento com base nessas informações. Houve dezenas de processos. Eu, por exemplo, passei dias e dias e dias no banco dos réus de um tribunal (que era duro e não tinha costas), porque tive 5 processos diferentes.

Mas nem só de processos académicos e de processos policiais se fazia a repressão fascista nesta Universidade. Muitos dos presentes se lembram de quando estávamos aqui a fazer um plenário, neste átrio, e a Reitoria mandou fechar as portas e chamou a polícia e fomos todos presos, algumas centenas, e levados num imenso cortejo de carrinhas “nívea” até ao aljube.

Nos anos 70, a Academia do Porto vivia em estado de sítio. Era um verdadeiro movimento de massas que se tinha tornado absolutamente incontrolável pelas autoridades.

Estamos muito orgulhosos do enorme contributo dos estudantes desta Universidade para o descrédito total do regime podre em que vivíamos. Custou muito acabar com ele, mas valeu bem a pena.

Em nome de todas as gerações de estudantes que nunca desistiram da liberdade, muito obrigado por esta placa a lembrar a nossa luta.

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(aqui ficam algumas fotos do evento que têm sido publicadas nas redes, com a devida vénia ao Renato Roque, à Manuela Matos Monteiro, ao Fernando Sousa Lopes e ao António Leal)



















































Hoje na Cabelte... (mas não é disso que se fala)




Uma simples história de moral e proveito

Num dia distante, num país não tão distante assim, uns trabalhadores e outros desvalidos da sorte, reclamaram por melhor distribuição da riqueza.

Os que a tinham em desmesura, e uns quantos sábios avençados pelos mesmos, explicaram-lhes, com uma lógica irrefutável, que não se podia distribuir riqueza sem antes a produzir. Antes da distribuição, havia pois que dedicar-se à produção da dita.

Eles acreditaram, ou obrigaram-nos a fingir que acreditavam, e foram produzir, produzir, produzir, sempre mais riqueza. Depois disseram: já produzimos, vamos agora à distribuição.

Mas a resposta que tiveram foi a mesma que tinham tido antes: que não se podia ainda distribuir, havia antes que produzir, pois não se pode distribuir a riqueza que não se produziu.

E continuaram pois a produzir, rosnando baixinho e sonhando que um dia, talvez, venham a conseguir obrigá-los a uma distribuição com uma réstia de justiça.

Os mais desconfiados lembraram-se de um letreiro que havia na tasca da sua terra, que dizia: “Hoje não há fiado, só amanhã” e de como o tasqueiro lhes apontava o imóvel letreiro em todos os amanhãs em que o pedido de fiado se negava hoje.





Um mistério do 25 de Abril

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Um dos grandes “mistérios” do 25 de Abril é o facto de um regime com quase meio século de existência, que durante décadas de intenso trabalho ideológico e organizativo se foi enraizando em todo o complexo tecido social, institucional, político, administrativo, económico, cultural e religioso do país, se ter desmoronado sem resistência assinalável após os primeiros abanões da revolução.
Que foi feito dos defensores do regime? Daqueles que, a todos os níveis das diferentes hierarquias, o faziam funcionar? Daqueles que enchiam ruas e praças em manifestações de louvor e gratidão aos chefes? Eclipsaram-se todos de um momento para o outro? Ou tínhamos um forte regime fascista em Portugal, mas não tínhamos fascistas portugueses? Ou será que viraram todos a casaca e fizeram uma adesão em massa aos ideais da liberdade e da democracia que combatiam tão convictamente na semana anterior?
É bem provável que todas estas hipóteses contenham um pouco da resposta àquele mistério. Mas muitos apenas se acobardaram, abandonaram os seus líderes à sua triste sorte e, mantendo discretamente as suas convicções (que uma ideologia não se despe como quem muda de camisa), esperaram melhores dias para organizar o contra-ataque.
Se é um facto que, dada a curta distância histórica que nos separa de 1974, ainda há muitos resistentes anti-fascistas vivos e bem activos na política portuguesa, decorre logicamente que também haverá ainda muitos fascistas vivos e activos (para não falar nos novos recrutas que eles possam entretanto ter convencido das virtudes exemplares do antigo regime). Onde andam e a que se dedicam os apoiantes do antigamente? Quais as suas causas actuais, que batalhas e actividades têm hoje a sua marca? Onde se organizam?
Acaba de ser publicado um livro que dá uma preciosa ajuda para se perceber melhor por onde andaram, o que fizeram e com quem, que métodos usaram na primeira década da democracia esses saudosos órfãos da ditadura. Um livro que é um acontecimento editorial de grande alcance pelo seu relato histórico, mas também porque nos dá imensas e preciosas lições sobre os cuidados a ter se o nosso país quiser continuar num caminho de progresso e de avanço social, pondo em causa os interesses daqueles que sempre lucraram com a miséria alheia.
Um livro que absolutamente se recomenda. O seu título: “Quando Portugal ardeu”; o seu autor: Miguel Carvalho; uma edição da Oficina do Livro.

Casa da Magia - um projecto de Gaia



Na sessão de apresentação de candidaturas do Bloco em Vila Nova de Gaia, foi apresentado o projecto de uma Casa da Magia.

Veja aqui uma explicação desse projecto.