Uma esmolinha para a TSU…
As empresas não aguentam o aumento do Salário Mínimo Nacional, ou melhor, só aguentam se tiverem uma ajudinha do Estado.
Concretizando, para o tal exemplo - tão usado nos discursos - de uma micro empresa com três empregados, todos a salário mínimo, em que o encargo mensal com estes três trabalhadores é superior a dois mil euros (com desconto ou sem desconto), ela consegue aguentar o aumento do SMN se o Estado lhe der 21 euros por mês, sem isso não aguenta.
Estamos a falar de 70 cêntimos por dia para o total dos três trabalhadores (menos um café podia resolver o problema), o que torna bastante pouco credível o argumento. Que eu tenha reparado, ainda não foi apresentado um único exemplo de uma empresa concreta que mostre, com as suas contas, a impossibilidade de executar a medida, o que seria talvez uma boa maneira de alguém entender o que realmente se passa no terreno.
Se pensarmos que, por cada trabalhador abrangido pela medida, estão em causa menos de 24 cêntimos por dia de diferença entre ter ou não ter a polémica redução da TSU, dificilmente se compreende todo este afinco e algazarra.
Não estaremos perante um aproveitamento político das dificuldades reais das muito pequenas empresas (que são esmagadas por todos os lados, mas não certamente por estes 24 cêntimos) feito pelas confederações patronais, com objectivos de um alcance mais vasto, pensando mais noutras realidades e muito pouco nestas micro-empresas?
Concretizando, para o tal exemplo - tão usado nos discursos - de uma micro empresa com três empregados, todos a salário mínimo, em que o encargo mensal com estes três trabalhadores é superior a dois mil euros (com desconto ou sem desconto), ela consegue aguentar o aumento do SMN se o Estado lhe der 21 euros por mês, sem isso não aguenta.
Estamos a falar de 70 cêntimos por dia para o total dos três trabalhadores (menos um café podia resolver o problema), o que torna bastante pouco credível o argumento. Que eu tenha reparado, ainda não foi apresentado um único exemplo de uma empresa concreta que mostre, com as suas contas, a impossibilidade de executar a medida, o que seria talvez uma boa maneira de alguém entender o que realmente se passa no terreno.
Se pensarmos que, por cada trabalhador abrangido pela medida, estão em causa menos de 24 cêntimos por dia de diferença entre ter ou não ter a polémica redução da TSU, dificilmente se compreende todo este afinco e algazarra.
Não estaremos perante um aproveitamento político das dificuldades reais das muito pequenas empresas (que são esmagadas por todos os lados, mas não certamente por estes 24 cêntimos) feito pelas confederações patronais, com objectivos de um alcance mais vasto, pensando mais noutras realidades e muito pouco nestas micro-empresas?
Há 500 anos, um português explicava ao mundo “a melhor forma de governação”
Há 500 anos, um português explicava ao mundo
“a melhor forma de governação”
Renato Soeiro
(Texto publicado no jornal “O Gaiense”, 31 de Dezembro de 2016)
ANIVERSÁRIO MARCANTE
Fez agora, neste mês de Dezembro
de 2016, precisamente meio milénio que, num livro escrito em latim (a língua
internacional da época) e publicado em Lovaina, o português Rafael Hitlodeu,
marinheiro viajado e dotado de cultura clássica grega e latina, explicava ao
mundo, com impressionante detalhe, aquela que lhe parecia ser “a melhor forma
de governação” (é a expressão que figura no título do livro).
Esta obra viria a ter um enorme
e imediato impacto na Europa: poucos meses depois sai uma segunda edição em
Paris, seguida de outras duas em Basileia e uma quinta em Florença. Nesta, pela
primeira vez, aparece no título a palavra por que ficaria conhecida até hoje: Utopia. É um dos livros mais marcantes
da cultura europeia e, ao longo dos séculos, continuou – continua – a ser
publicado e difundido em todo o mundo. Tão popular a Utopia se tornou que chegou até a ter, logo no século XVII, várias
edições em práticos formatos de bolso, tão minúsculos como 6,5x5 cm ou 10,5x5,5
cm.
O seu autor: o inglês Tomás Moro
(Thomas More), um dos grandes intelectuais europeus do século XVI, Provedor dos
Direitos dos cidadãos de Londres, opositor militante dos impostos com que o rei
esmagava o povo para financiar o seu luxo e as suas guerras, deputado ilustre,
diplomata, chanceler do reino, homem da igreja e da universidade. Haveria de
ser preso e decapitado em 1535 por se recusar a aceitar as pretensões do rei
Henrique VIII sobre a regra de sucessão e sobre a chefia da igreja, entre
protestos imensos de toda a Europa culta, que conhecia e admirava o autor da Utopia, um dos textos maiores do
Humanismo renascentista.
Essa admiração nunca morreu. Tomás
Moro ficaria para a história como uma das grandes referências para pessoas de
diferentes épocas, diferentes geografias e diferentes ideologias.
Dois exemplos:
meses depois da vitória da Revolução Russa de 1917, Lenine fez gravar num
obelisco comemorativo numa praça de Moscovo o nome de Tomás Moro ao lado de
Marx e Engels, entre outros; em 1935, nos 400 anos da sua decapitação, a Igreja
Católica procedeu à canonização do que é hoje São Tomás Moro.
Convenhamos que
só uma personalidade verdadeiramente excepcional conseguiria ser
simultaneamente um herói para os revolucionários marxistas e um santo para a
igreja. Isto apesar de a mesma igreja ter colocado a Utopia, durante muito tempo, no Index
dos livros proibidos, nomeadamente nesta pátria de Hitlodeu, proibição que a
Inquisição zelosamente fazia cumprir.
A nós, portugueses, não pode
deixar de nos encher de orgulho que o ilustre autor tenha colocado na boca de um
nosso conterrâneo todo o relato e todas as propostas contidas nesta sua obra-prima.
No ano em que redigiu a Utopia – 1515
– Moro esteve em Bruges e em Antuérpia, integrado numa missão
diplomático-comercial inglesa. Para esta cidade, novo e pujante entreposto
comercial e praça financeira internacional de primeiro plano, se tinha
transferido, no virar do século, a feitoria real portuguesa, que antes tinha
estado em Bruges. Aí vivia uma numerosa e influente colónia de mercadores
portugueses e aí aportavam constantemente as nossas embarcações. Moro, já bom conhecedor
dos feitos marítimos de Portugal pelos textos e relatos que circulavam na
Europa culta, terá contactado nesse porto da Flandres com a nossa gente do mar,
falado com vários “Rafaeis Hitlodeus” e obtido talvez uma última inspiração
para o seu livro.
ACTUALIDADE DESCONCERTANTE
O livro é apresentado como uma
longa conversa que Tomás Moro, acompanhado pelo seu assistente John Clement,
tem com um navegador português que lhe é apresentado por Pedro Gilles, cidadão
de Antuérpia. Os quatro resolvem ir para o jardim da casa onde Moro estava
instalado, para ouvir os relatos de Rafael sobre os novos mundos que conhecera
nas suas viagens.
A conversa é longa e variada; numa primeira parte analisa-se
em detalhe os usos e costumes da sociedade inglesa, que o português terá
conhecido bem e sobre a qual emite profundos juízos críticos; e fala-lhe depois
de uma ilha onde encontrou uma civilização em que “administram as suas coisas
com mais saber que nós as nossas”; Moro quer conhecer tudo sobre a vida e a
organização da sociedade nessa terra que Rafael tanto admira e propõe que parem
para tomar uma refeição, para depois continuarem “sem se importar com o tempo
que vai demorar”.
Esta outra parte da conversa,
tida depois de comer, constitui o Livro Segundo desta obra. Nele, o português
faz um relato extremamente pormenorizado da vida na ilha da Utopia, abarcando
todos os aspectos da sua organização política, social, administrativa e dos
hábitos quotidianos dos seus habitantes. Não é uma sociedade primitiva, como
outras que conheceu, mas uma sociedade avançada e culta, conhecedora tanto das
culturas e civilizações clássicas, como dos problemas do resto do mundo
contemporâneo.
É, obviamente, uma descrição
muito datada, que reflecte os conhecimentos e as preocupações da época. Mas é
interessante notar até que ponto denota um enorme avanço em relação aos cânones
então vigentes e que haveriam ainda de perdurar dolorosamente até aos nossos
dias. Seja sobre a justiça social, a distribuição da riqueza, a propriedade
privada, o sistema de saúde e a protecção na velhice, os cuidados paliativos e
até a questão da eutanásia, os direitos dos imigrantes, os horários de
trabalho, ou mesmo sobre os tratados internacionais, os sistema de leis e os
advogados, o urbanismo e a recuperação de casas antigas, a liberdade religiosa,
o divórcio e até a crítica da caça e da astrologia e outras adivinhações. Entre
muitos outros.
O leitor ficará certamente
espantado com a desconcertante actualidade da forma como estes temas são
abordados, fazendo pensar nas razões por que, meio milénio depois, ainda nos
confrontamos com os mesmos problemas para os quais Moro tinha descrito
possíveis soluções. Há várias edições em português, das quais destacamos uma
recente e excelente edição da Fundação Calouste Gulbenkian. Aqui fica o desafio
para uma leitura de enorme proveito para todos.
.............................................
E, para abrir o apetite, aqui ficam alguns extractos, retirados
dessa edição:
Justiça social:
“De facto, que justiça é essa que faz com que alguém, por ser fidalgo
ou por transaccionar dinheiro ou por se entregar à usura (enfim, seja ele quem
for daqueles que ou nada fazem ou aquilo que fazem é como se nada fizessem em
favor da comunidade), consiga uma vida lauta e esplêndida sem fazer nada ou em
actividade supérflua, quando entretanto um intendente, um condutor de carros,
um artesão, um agricultor, que aguentam trabalho penoso e ininterrupto (…)
recebem um alimento tão fraco, arrastam uma vida tão miserável (…)?! Ora, não
só é um trabalho sem recompensa e sem frutos que lhes retira o incentivo no
presente como também é a perspectiva de uma velhice de indigência o que os
mata, tanto mais que o seu salário do dia-a-dia é de si insuficiente para
acorrer às necessidades diárias e está longe de sobrar para lhes permitir
poupar cada dia alguma coisa que sirva em tempo de velhice. (…) Depois de se
ter servido do seu trabalho em idade em que gozavam de forças, quando eles
ficam carregados de anos e de doenças e necessitados de todas as coisas, não se
lembrando de tantas vigílias, esquecendo tantos serviços, ela, para cúmulo de
ingratidão, paga-lhes com uma morte da pior espécie. E quê? Até no salário do
dia-a-dia que é concedido à gente pobre os ricos diariamente rateiam alguma
coisa, não apenas em fraude privada, mas até com o apoio das leis (…).
É por isso que, quando olho para os Estados que hoje se apresentam em
prosperidade, dou comigo a pensar (Deus me é testemunha) se não está a ocorrer
uma conspiração de ricos que usurpam o nome e a autoridade do Estado para
tratarem dos seus próprios interesses, congeminando e maquinando todos os modos
e todas as estratégias para, primeiro, ficarem com os bens que desonestamente
açambarcaram, sem medo de os perderem, depois, para pagarem o mínimo possível
de mão-de-obra aos pobres e para deles abusarem. Estas maquinações, desde que
alguma vez os ricos as promulguem em nome do bem público, isto é, em nome
também dos pobres, logo se tornam em leis. Ora, estes homens, mais que
abjectos, que com insaciável cupidez repartem entre si aquilo que bastaria para
a todos acorrer, quão longe estão da bem-aventurança do mundo da Utopia!”
Distribuição da riqueza:
“[I]magine-se um ano sem produções e sem colheitas, em que a fome
dizimasse muitos milhares de pessoas. Eu sustento, sem rebuços que, se no final
deste período de carestia, se batesse à porta dos celeiros dos ricos, haveria
de poder-se encontrar tanto cereal que, a ser distribuído entre todos aqueles
de que a fome e a peste tomou conta, ninguém haveria de sentir minimamente a
escassez causada pelas condições de clima e de solo. Seria tão fácil arranjar
alimento, se o afortunado dinheiro, engenhosamente inventado para abrir as
portas ao alimento, não fosse ele a barrar-nos o caminho para ele!”
Os ricos:
“Espanta-os também que, sendo o ouro, por própria natureza, tão pouco
útil, tenha adquirido, hoje, em todo o lado, tanto valor que o próprio homem,
por quem e para cuja utilização esse valor foi constituído, seja tido em menor
estima que o ouro em si, de tal maneira que um bronco, que não tem mais
inteligência que um cepo, nem menos descaramento que um tonto, acaba, apesar de
tudo, por ver submetida a si muita gente, mesmo sapiente e boa, apenas por uma
razão, a de lhe ter cabido um pecúlio de moedas de ouro (…) por um capricho da
fortuna ou por qualquer artimanha das leis (…).
Uma outra coisa os espanta e eles detestam: a insensatez daqueles que,
não devendo a ricos nem lhes estando sujeitos em nada, sem outro motivo que o
de eles serem ricos, lhes prestam honras, que só faltava fossem divinas, muito
embora sabendo que eles são tão sórdidos como gananciosos, para terem um
pecúlio tão seguro e certo de dinheiro, e que, enquanto eles forem vivos, nem
uma moedinha, alguma vez, lhes virá desse lado.”
Propriedade privada:
“Efectivamente, quando cada um se pode prevalecer de certos títulos
para avocar a si tudo o que pode, seja qual for a quantidade de bens, poucos
haverá que sejam admitidos a repartir o que existe, aos outros deixá-los-ão na
miséria. Quase se diria que uns são muito mais merecedores que outros dos
favores da sorte; enquanto uns são rapaces, desonestos e passam a vida na
ociosidade, outros são modestos, simples e, nas tarefas quotidianas, mais
dedicados ao interesse público que à procura do interesse pessoal.
É minha convicção firme que uma distribuição segundo critérios de
equidade ou uma planificação justa das coisas humanas não é possível sem
eliminar totalmente a propriedade privada.”
Horário de trabalho:
“(…) fazer com que ninguém passe a vida na ociosidade, mas cada um se
entregue com afinco ao seu ofício, sem todavia se esfalfar desde a madrugada
até à noite, sempre a trabalhar como bestas de carga. Tal forma de vida seria
um peso maior que o de escravos; será a que levam em muita parte os
trabalhadores, mas não na Utopia. Os seus habitantes dividem o dia, incluindo a
noite, em vinte e quatro horas de tempos iguais: seis horas são dedicadas a
trabalhar, três antes do meio dia, depois das quais tem lugar o almoço, que se
prolonga pela sesta em descanso, retomando de seguida o trabalho durante três
horas para tudo terminar com a refeição principal. (…) O tempo que houver entre
as horas de trabalho e as de sono, com o comer pelo meio, cada um é livre de o
utilizar como lhe aprouver (…). A maior parte consagra às letras estas horas de
folga (…).
Havendo seis horas apenas para trabalhar, talvez alguém pense que daí
decorre provavelmente uma certa falta de bens de primeira necessidade. Isso
está longe de acontecer, pois esse tempo é suficiente para produzir bens
abundantes que bastem para as necessidades e que cheguem não apenas para
remediar, mas até sobrem.
Isso se compreenderá melhor se pensarmos que noutros povos há grande
parte da população que passa a vida sem fazer nada. (…) A verdade é que, quando
tudo se mede por dinheiro, se tornou inevitável exercer ofícios completamente
inúteis e supérfluos, para servirem a ostentação ou bem assim a ganância. (…)
Mas se todos aqueles que agora se entregam a mesteres inadequados e se toda
essa multidão que acima de tudo vai enfraquecendo no ócio e na preguiça (…), se
todos eles fossem postos a trabalhar e se isso se fizesse em coisas úteis,
facilmente nos daríamos conta do pouco tempo que seria necessário para produzir
tudo o que racionalmente se poderia prever como indispensável ou que o conforto
postula (ou até mesmo uma parte de prazer que seja admissível e natural);
nestas condições haveria abundância e haveria sobras.”
Manutenção de edifícios:
“Um outro factor de economia é de mencionar: na maior parte dos
mesteres que produzem bens indispensáveis, há menos trabalho a executar que
noutros povos. Efectivamente, por toda a parte, a manutenção dos edifícios ou a
sua reparação exigem de muitos trabalho tão contínuo e generalizado que aquilo
que o pai edificou um herdeiro pouco avisado deixa degradar a pouco e pouco
(…); não é menos frequente que uma casa só se mantenha de pé devido a enormes
gastos de outrem; ora a esta um outro, com espírito calculista, põe-na de parte
e, ao ser abandonada, a breve trecho cai em ruínas; constrói ele uma nova
noutra parte com gastos bem maiores.
Ora, na Utopia, onde todas as coisas estão previstas e onde a
governação é bem gerida, muito raramente acontece que se eleja uma nova zona
para levantar uma moradia; e não só se remedeiam rapidamente as deficiências
manifestas, mas também se previnem as que ameaçam vir a ocorrer. Deste modo,
com um trabalho mínimo, os edifícios aguentam-se por muitíssimo tempo.”
Imigrantes e viajantes:
“Todo o visitante que ali chega para tomar conhecimento da terra e se
salienta por algum predicado intelectual ou pela experiência de ter viajado
muito (…) é recebido com demostrações de simpatia. Na realidade, de bom grado
prestam ouvidos ao que lhes contam do que acontece em qualquer parte do mundo.”
“(…) [A]lguém de outro povo, trabalhador e pobre, que, de um momento
para o outro e por própria iniciativa, escolhe colocar-se ao serviço dos
utopienses. São tratados com respeito e nada se lhes impõe a mais que não seja
do trabalho a que aliás estão habituados; não os tratam com muito menos
deferência que aos cidadãos, deixam-nos partir se algum decide ir embora (o que
não acontece senão raramente) e não obrigam a ficar quem não tem vontade disso
nem o deixam ir de mãos vazias.”
Justiça:
“Dá-se assim o caso de a justiça no seu conjunto parecer que não é mais
que virtude plebeia e de baixa extracção, sentada muitos degraus abaixo do
trono régio, ou então que há duas justiças, uma que vale para o povo, que
caminha a pé e ao nível do solo, sem ser capaz de alguma vez saltar as
barreiras, limitada com peias por todos os lados, outra, a virtude dos
príncipes que, sendo mais elevada que a do povo, também é de longe a mais
liberal, de tal modo que só não lhe é permitido tudo quanto não lhe apraz.”
Leis e advogados:
“As leis são muito poucas, pois bastam umas tantas para quem possui
tais instituições. Aliás, aos outros povos os utopienses censuram
principalmente o facto de precisarem de um sem número de livros de leis e de
comentadores. Por parte deles, consideram que é uma iniquidade enorme obrigar
os homens ao cumprimento de leis que pelo facto de serem tantas não conseguem
lê-las ou que pelo facto de serem tão obscuras ninguém as consegue entender;
por isso é que dispensam de forma radical os causídicos – que se habituaram a
tratar as causas com astúcia e discutem as leis com perfídia.”
Tratados:
“É facto que na Europa, sobretudo nos países em que vigora a fé e a
religião cristã, proclama-se soberanamente o carácter sacrossanto e inviolável
dos tratados (…). A justo título, realmente consideram que é uma vergonha
inqualificável que seja a gente que a si mesma se designa com o nome peculiar
de fiéis aquela que mais falta ao cumprimento dos compromissos dos tratados que
assinou. (…) [Q]uanto mais eles se envolvem em cerimonial sacrossanto mais
depressa se dissolvem, sendo até fácil descobrir que há sempre motivo de
chicana nas palavras, que aliás, os próprios ditaram com tanta astúcia que lhes
é possível nunca ficarem vinculados de forma escrita, sem retirarem alguma
coisa e sem se furtarem igualmente ao cumprimento do tratado e da palavra
dada.”
“(…) [E]ssa prática até parece levar os homens a crer que nasceram para
serem adversários e inimigos uns dos outros e que têm por obrigação investir uns
contra os outros, a menos que haja tratados a proibi-lo; assim, não é por haver
tratados celebrados que se cultivam as boas relações de amizade, pois continua
a haver direito de pilhagem, sempre que, por imprevidência dos redactores de um
tratado, nenhuma interdição a esse respeito ficou compreendida e acautelada nos
pactos. Ora, ao contrário de tudo isto, consideram eles que ninguém deve ser
tomado por inimigo, se dele nunca partiu qualquer ofensa. Partilhar a mesma
natureza vale de pacto, basta e é preferível que os homens vivam unidos entre
si mais por bem quererem do que por protocolos, mais pelo coração do que pelas
palavras.”
Liberdade religiosa:
“Facto é que entre as suas leis mais antigas se conta a de que ninguém
pode ser desconsiderado por causa da sua religião. Com efeito, logo de início,
Útopo (…) estipulou que cada um seria livre de seguir a religião que quisesse,
mas que só podia angariar adeptos para ela expondo as suas razões de modo
pacífico e com moderação, sem investir contra as outras de forma desabrida,
doutrinando, mas através da persuasão, evitando toda a forma de violência e
debatendo com moderação (…). Com razão pensava ele que exigir sob violência, ou
sob ameaças, que todos reconhecessem como verdadeiro aquilo em que cada um acredita
isso ultrapassava os limites e era insano. (…) Por tal motivo, Útopo colocou
toda esta questão em aberto e deixou liberdade a cada um de decidir quanto
àquilo em que se obrigava a acreditar.”
A guerra:
“A acção bélica, [em latim bellum], é algo de verdadeiramente bestial, [em latim belluinum], mesmo que não haja qualquer tipo de
bestas para quem ela seja tão frequente como para o homem o recurso a ela;
muito embora tal aconteça por parte do homem, é rotundamente proscrita pelos
utopianos e, ao invés do que se passa em todas as nações, a custo se encontrará
coisa tão desqualificada como a glória que se busca na guerra.”
Astrologia:
“Quanto à conjunção ou oposição dos planetas e a toda essa impostura
que é a adivinhação pelos astros, nem sequer sonham com isso. (…)”
“Quanto a augúrios e a outras adivinhações de vã observância, a que é
prestada muita atenção noutros povos, pela parte deles não lhes conferem
qualquer importância e troçam dessa prática.”
Saúde:
“(…) [E]m primeiro lugar, colocam o cuidado dos doentes, que são
tratados nos hospitais públicos, (…) tão amplos que (…) ninguém tem de ficar
apertado e por isso em más condições (…). Estes hospitais estão tão bem
planeados e tão completamente dotados de equipamentos de saúde, e, além disso,
os cuidados são aí prestados com tanto carinho e solicitude, tão assídua é a
assistência de médicos da maior competência, que, muito embora ninguém para ali
seja enviado contra vontade, poucos serão, de verdade, os que (…) numa situação
de doença, não prefiram estar ali do que ficar acamados em sua casa.”
“Dos prazeres que o corpo solicita, cabe a palma à saúde, pois têm bem
presente que a satisfação de comer e de beber e tudo aquilo que corresponde a
um plano de gozo da vida deve ser posto como finalidade mas em razão da saúde.
(…) [O] homem de bem-pensar prefere esconjurar as doenças a optar por remédios,
dar luta à dor a andar em busca de paliativos.”
Cuidados paliativos e eutanásia:
“[O]s que sofrem de doença incurável, procuram assisti-los e
entretê-los com momentos de conversação, levando-lhes mesmo algo que lhes possa
servir de paliativo. No entanto, se a doença não é apenas incurável, mas também
se prolonga de forma acabrunhadora e intolerável, então, os sacerdotes e os
magistrados, atendendo a que o doente já não consegue corresponder às funções
vitais (…) ou que está apenas a sobreviver penosamente à sua própria morte (…)
[aprovam que não] hesite em assumir a morte, já que a vida é para ele um
tormento; (…) uma vez que pela morte não rompe com uma vida feliz, mas com um
suplício, seria de todo sensato que assim procedesse (…). No entanto, por eles,
os utopianos não forçam ninguém a isso nem diminuem o que quer que seja dos
cuidados que antes lhes prestavam. Há, contudo, respeito por quem se deixar
persuadir a morrer desta forma.”
Caça:
“Ou haverá maior sensação de prazer quando um cão persegue uma lebre do
que quando corre atrás de outro cão? Na realidade, trata-se da mesma coisa, se
é que é o correr que desencadeia o prazer! Pelo contrário, se é a espera do
sangue e a expectativa da dentada que retêm suspenso o olhar, deve mover
sobretudo à compaixão observar que um lebracho é desfeito por um cão, um fraco
por outro mais forte, enfim, um ser inofensivo por outro que é cruel. Por isso
os utopienses repudiam esta prática da caça, como coisa indigna para homens
livres, remetendo-a para carniceiros (ofício que entregaram, como dissemos, nas
mãos de serviçais). De facto, consideram que a caça é a parte mais degradada
desse ofício de talhante, quando comparada com outras acções mais úteis e mais
honrosas, que são de muito maior proveito; aliás, os talhantes não matam os
animais senão por necessidade, ao passo que o caçador mata e destroça um
animalito só por um pouco de prazer. Consideram eles que é indigno o anseio de
assistir à matança dos animais e que ou brota de uma sensibilidade que roça
pela crueldade ou procede de prática insofrida de prazer tão desenfreado que
acaba em crueldade.”
Divórcio:
“Quanto ao mais, acontece por vezes que há esposos cujos temperamentos
se tornam incompatíveis entre si e ocorre também que um e outro encontram
alguém com quem criam expectativas de formar uma vida mais harmoniosa;
separando-se um do outro por comum acordo, contraem novos matrimónios, mas não
sem entretanto receberem autorização do senado, o qual, todavia, não admite o
divórcio senão depois de ter sido instruída cuidadosamente a causa pelos
próprios interessados com suas esposas.”
Quando eles diziam: "Apoio as sanções"
Memórias de um debate, em 28 de Setembro de 2011, no plenário do Parlamento Europeu, em Estrasburgo: aqui ficam algumas declarações de voto de alguns deputados portugueses.
Fonte: Parlamento Europeu, aqui
Edificantes sugestões dos nossos amigos do FMI
Das propostas do FMI para a Europa, 8 de Julho de 2016:
Shrinking the cost of hiring workers and expanding cost effective active labor
market policies can draw more workers into the workforce. The recovery is an
opportune time to commit to reducing
excessive protection for workers on regular contracts and overly generous
financial disincentives for entering the labor market as these distortions keep
unemployment too high for too long.
Ou, em castelhano:
Reducir los costos de contratación de empleados y ampliar las políticas del mercado
laboral activas y rentables puede atraer más trabajadores a la fuerza laboral.
La recuperación es el momento oportuno para comprometerse a reducir la excesiva protección de los
trabajadores con contrato regular y los desincentivos financieros
exageradamente generosos para entrar en el mercado laboral, puesto que dichas
perturbaciones hacen que el desempleo se mantenga demasiado elevado durante
demasiado tiempo.
Ver texto completo aqui.
Unanimidade contra as sanções?
Existe hoje um comovente consenso
nacional contra a aplicação de sanções a Portugal por défice excessivo. Ao que
parece, todos estão de acordo em considerar que as sanções são injustas e
contraproducentes, todos estão de acordo em pronunciar-se firmemente contra
aqueles burocratas sem rosto nem coração que nos querem aplicar cegamente as
regras europeias.
Tanto consenso parece resultar de um
simples e evidente bom senso sobre a matéria e seria certamente de saudar. Mas acontece
que não é de facto saudável, pela simples razão de que se baseia numa grande
dose de ocultação, merecendo dos cidadãos e dos media um olhar um pouco mais
atento.
Porque, para que possa ser
equacionada pela Comissão Europeia a hipótese de quaisquer sanções virem a ser
aplicadas, foi necessário que elas estivessem previstas nos Tratados e que
existisse um Regulamento que definisse em pormenor as condições e os mecanismos
da sua aplicação.
Ora,
Tratados e Regulamentos não são aprovados por burocratas sem rosto. Os seus autores
e os responsáveis pela sua aprovação, têm rosto e têm nome: são os comissários
que fazem a proposta inicial (e o presidente deles era um português,
ex-presidente do PSD e ex-primeiro-ministro), são os deputados europeus, que
decidem no Parlamento, e são os governantes dos nossos países, que decidem no Conselho. Foram eles
que criaram e aprovaram as sanções, foram eles que definiram as condições e as regras
da sua aplicação. E também os seus objectivos, entre os quais a própria
credibilidade do sistema: “Há que impor sanções adicionais para que o exercício da supervisão orçamental
na área do euro seja mais eficaz. Tais sanções deverão aumentar a credibilidade
do quadro de supervisão orçamental da União.”[1]
Daí que seja inevitável sentir no ar
uma dose substancial de hipocrisia quando se vê as mesmas pessoas que aprovaram
tudo isto colarem-se agora ao popular e habitual sobressalto patriótico contra
os funcionários sem rosto que impõem medidas (sejam sobre sanções, sejam sobre
o que fazer com os bancos) a países soberanos por cima dos seus órgãos
democraticamente eleitos.
Não porque não seja verdade que esses
funcionários o fazem, não porque não seja inaceitável que o façam. Mas porque isso pode ser entendido como uma
forma de absolvição ou, pelo menos, uma tentativa de encobrimento daqueles que
são os principais responsáveis por que isso possa acontecer, que são os que
definiram as regras, aprovaram os Tratados e os Regulamentos ao abrigo dos
quais esses tais burocratas sem rosto podem exercer a sua tão criticada actividade.
E esses principais responsáveis são políticos eleitos pelo povo, são gente bem conhecida
de todos nós.
E a esses, a quem verdadeiramente
define as leis, as regras e o funcionamento contra que hoje tantos protestam
(com razão), a esses dá-lhes imenso jeito que as críticas se concentrem nos
funcionários sem rosto da Comissão ou do BCE.
Aliás, ter quem faça esse papel de
bode expiatório a partir de um posto inamovível pelo voto popular, é um dos
truques habituais dos políticos eleitos que querem impor medidas antipopulares
sem serem penalizados eleitoralmente pelas suas próprias decisões.
Se
hoje Portugal enfrenta a possibilidade de ser alvo de sanções e de multas, que
todos parecem considerar estúpidas e prejudiciais, é porque há um Regulamento
do Parlamento e do Conselho onde essas multas e sanções foram estabelecidas, é
porque os deputados europeus (deputados portugueses incluídos) e os governantes
europeus (governantes portugueses incluídos) decidiram no Parlamento e no Conselho
que essas sanções devem existir, como e porquê devem ser aplicadas a países
como o nosso.
Não se
pode deixar esquecer o facto de que muitos eurodeputados portugueses do PSD, do
CDS e do PS (o chamado “arco europeu”, agora que o “arco da governação” foi
para o caixote do lixo da história) votaram a favor das sanções, vários se
empenharam activamente na redacção dos textos legais que as criaram e definiram
em pormenor, tantos defenderam em intervenções e textos escritos as virtudes
correctivas e disciplinadoras das sanções e das multas, houve mesmo textos
assinados por políticos portugueses saudando a criação das sanções. E não se
pode também esquecer que o governo português de então votou a favor no
Conselho.
Ora, votar e falar lá fora a favor das
sanções e defender cá dentro que a nós não se devem aplicar, é uma atitude de
seguidismo para estrangeiro ver, tomada lá; populismo para português votar,
tomada cá; falta de coerência e de dignidade, lá e cá. É que ninguém ouviu ainda – tanto quanto me apercebi – uma palavra de arrependimento àqueles que votaram
em Bruxelas e em Estrasburgo a favor de que os países possam ser sancionados
com 0,2% do seu PIB e possam perder acesso aos fundos europeus.
Estes são os mesmos que aprovaram também o reforço do PEC, tornando mais
automática a imposição destas sanções, para tentar atenuar e disfarçar a carga
de responsabilidade política de quem as viesse a decidir em cada caso concreto.
As sanções punem o défice
excessivo?
Durão Barroso, o presidente da Comissão Europeia que tomou a iniciativa
de propor o actual regime de sanções, pelo facto de estar hoje fora da disputa
política partidária em Portugal, pode dar-se ao luxo de ser mais claro e mais sincero
do que os seus correligionários do PSD ou do CDS sobre esta matéria.
Por isso afirmou esta semana, de forma cristalina e esclarecedora: “Em
relação às sanções, depende muito do que o Governo português agora disser e
fizer. Penso que o mais importante para os parceiros europeus é averiguar até
que ponto é que Portugal está verdadeiramente decidido a manter as reformas
estruturais e a manter prudência orçamental”
Quem achava que as sanções dependiam e puniam os números do défice de
2015 do governo PSD/CDS, fica a saber que as sanções afinal dependem e punem o
que o governo do PS de 2016 disser e fizer. São sanções ao que o actual governo
diz, ao que o actual governo faz, à sua decisão de “manter as reformas
estruturais” contra as quais definiu o programa com que foi eleito. E devemos
tomar em devida conta esta opinião, porque Barroso conhece melhor do que
qualquer um de nós o verdadeiro funcionamento da União Europeia.
Isto pode ser um alerta para aqueles que achavam, com alívio, que, como todos
prevêem que o nosso défice fique abaixo dos 3% em 2016, estaríamos a partir de
agora finalmente livres de sanções. Não é verdade. As sanções são políticas,
como bem explicou Barroso e como os eurodeputados e os governantes que redigiram
o Regulamento que estabelece o regime de sanções já tinham plasmado no texto
legislativo:
“Estas sanções deverão ser aplicadas sempre
que um Estado-Membro, mesmo apresentando
um défice inferior ao valor de referência de 3% do Produto Interno Bruto (PIB),
se desvie significativamente do objectivo orçamental de médio prazo ou da
trajectória adequada de ajustamento a esse objectivo e não corrija o desvio.”[2]
Mesmo com um défice abaixo dos 3%, não estaremos totalmente livres de
qualquer acção de retaliação sobre o nosso país, se a “trajectória de
ajustamento” – como eles dizem – for considerada “não adequada”, e eles é que
decidem se é adequada ou não.
Se for o caso, sanções podem vir a ser propostas pela Comissão, podem
vir a ser aprovadas pelo Eurogrupo e pelo Conselho e, convém lembrar, Portugal
não terá qualquer direito de voto nessa decisão – porque também isso foi
aprovado pelos nossos eurodeputados e pelos nossos governantes de então.
Conviria que o povo estivesse um bocadinho mais atento quando elege os
seus representantes e, já agora, que estivesse bastante mais atento ao que eles
fazem e aprovam depois de eleitos.
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