“Democratic niceties”



Publicado em: O Gaiense, 30 de Abril de 2011

Esta expressão inglesa – democratic niceties – tem sido usada na imprensa europeia para classificar depreciativamente as discussões em Portugal, primeiro sobre se um governo de gestão corrente pode vincular o país a um programa para vários anos, depois para referir a própria escolha eleitoral: são detalhes, insignificâncias democráticas.
A troika ultrapassou estas insignificâncias decidindo que todos assinam o plano: assina o governo e assinam os partidos que eles consideram que podem vir a governar amanhã. Os putativos primeiros-ministros vão jurar solenemente cumprir e fazer cumprir o programa da troika (que poderá vir a ser conhecido como “o memorando”). E, com este juramento, as eleições e a escolha do primeiro-ministro ficam de facto reduzidas à dimensão de democratic niceties. A troika sabe que não tem condições para impor um primeiro-ministro, que este tem de resultar das eleições, resta-lhe portanto tornar essa escolha irrelevante.
Quem a troika pode escolher é o ministro das Finanças, já que os ministros não são eleitos. Este é que vai ser o homem (ou a mulher) forte do FMI e da troika, o seu elo de ligação com Portugal, que vai tomar conta da situação, que vai tomar conta do primeiro-ministro, cujas decisões não terão validade legal até serem autorizadas superiormente pelo “seu” ministro da Finanças. Poderá ocorrer que as próprias decisões parlamentares com impacto orçamental não sejam válidas até serem “promulgadas” pelo ministro das Finanças, que será um verdadeiro administrador-delegado do país em representação do accionista maioritário.
É a este nível que queremos chegar?

O “arco do FMI” e a bipolarização


Publicado em: O Gaiense, 22 de Abril de 2011

Durante muito tempo se tentou impor em Portugal aquela lógica da bipolarização que tem destruído o pluralismo democrático em muitos países europeus, e não só, como é o caso dos EUA. Felizmente, nunca por cá vingou esse modelo redutor das opções políticas. De qualquer modo, os dois partidos que se tentavam afirmar como pólos dessa bipolarização nunca apresentaram diferenças suficientes entre si para conseguirem catalisar o seu pretendido pólo. A ter acontecido, esta seria, portanto, uma bipolarização viciosa.
Mas a presente situação política poderá fazer nascer, pela primeira vez, a bipolarização no nosso país. Não terá, contudo, a geometria que caracterizava as desastradas tentativas anteriores.
Quando a troika FMI-BCE-CE submeter um leque alargado de partidos ao ditame de um programa de governo único, estará a construir (os mais atentos dirão: a consolidar) um pólo político unificado, que será suficientemente claro nas suas fronteiras externas e suficientemente difuso nas suas fronteiras ideológicas internas, apresentando portanto as características essenciais para a constituição de um dos lados desta nova bipolarização.
Resta saber se os que não se reveem neste pólo, neste “arco do FMI”, terão a sabedoria e a coragem para constituírem, do outro lado da bipolarização, um verdadeiro arco alternativo.

O exemplo da Islândia


Publicado em: O Gaiense, 16 de Abril de 2011

O referendo na Islândia não teve em Portugal o destaque que merecia, sobretudo pelas lições que pode trazer para lidarmos com a nossa própria crise. O que os islandeses rejeitaram foi pagar o buraco de uma espécie de BPN lá do sítio. Especuladores estrangeiros jogaram as suas economias num banco privado que prometia online juros muito acima do mercado. Enquanto foram ganhando, meteram o dinheiro ao bolso. Quando aquela Dona Branca da internet estourou, exigiram que os contribuintes islandeses os indemnizassem.
Para evitar descontentamentos, os governos da Holanda e do Reino Unido pagaram os prejuízos dos especuladores dos seus países e tentam cobrar da Islândia esse valor. Com a força da sua pressão sobre um pequeno país, conseguiram fazer aprovar um plano de pagamento de 3,8 mil milhões de euros. Mas uma petição popular obrigou a que a decisão fosse referendada e o plano acabou recusado. Então, o tal plano que não tinha alternativa foi substituído por outro mais favorável, baixando o juro de 5,5% para 3,2% e estendendo o prazo para 30 anos, começando a pagar apenas em 2016. Mas o presidente da República entendeu ouvir o país em referendo e este plano também não passou.
Com a simples coragem e lucidez de rejeitarem o primeiro plano, os islandeses conseguiram rever drasticamente em baixa as suas condições. E, com a rejeição desta segunda versão, dão uma verdadeira lição às vítimas de planos agressivos de reestruturação, mostrando que só são inevitáveis se os povos os aceitarem passivamente. É o “perigoso” efeito de contágio deste exemplo que o silêncio dos media quer evitar?

Leiam esta notícia tenebrosa do EU Observer, menos dissimulada do que os relatos nos media portugueses

EU: All Portuguese parties must back bailout-austerity package

08.04.2011 @ 17:48 CET
EUOBSERVER / GODOLLO, HUNGARY - European Union finance ministers meeting in Godollo, Hungary on Friday (8 April) have given the green light to launch talks not just with the caretaker government of Portugal but also the "main opposition parties" for a bail-out of around €80 billion.

In return for the financial assistance, the caretaker government and opposition must agree to an "ambitious" three-year programme of liberalisation, privatisation and spending cuts.

A medal made by the conservative opposition party, the Partido Social Democrata (Photo: Pieter Musterd)
Centre-left Prime Minister Jose Socrates' hope of avoiding a full multi-year bail-out package on the model of those imposed on Greece and Ireland, with its attendant abdication of sovereign control over economic decision-making, was dashed.
EU economy chief Olli Rehn told a press conference the deal "on the magnitude" of €80 billion, which will also involve the IMF, also to the Portuguese prime minister's chagrin, would be a "fully-fledged - most likely three-year programme" with "strict conditionality" attached.
Ahead of negotiations, the EU has outlined the three pillars it expects to find in an agreed bail-out memorandum: spending cuts; liberalisation of labour markets - including "an ambitious privatisation programme"; and measures to maintain the liquidity and solvency of the financial sector.
The programme is to go further than the package of cuts targetting healthcare, pensions and welfare that the Portuguese parliament rejected on 23 March, provoking the resignation of the government.
Nevertheless, according to Rehn, the defeated austerity programme will now form the "starting point" of the new austerity programme.
"We note that part of this was not approved by parliament ... therefore it cannot be exactly the same," he continued.
Finnish finance minister Jyrki Katainen of Finland, was even more frank about how Portugal must enact more thoroughgoing changes than had been rejected: "The package must be harder and more comprehensive than the one the parliament voted against."
Details of the structural adjustment have yet to be assessed. The commission together with the European Central Bank and the IMF "will start straight away with the Portuguese authorities," Rehn added, heading to Lisbon to "open the books", a task that is expected to take two weeks.
After financing needs are established, the commission will deliver a draft austerity programme to EU finance ministers to approve. He said he hopes the work will be completed by 16 May.
But everyone involved will be working against the clock: "Portugal will manage its financing needs in April and May while June is more challenging."
Cross-party agreement
The EU is also to attempt to cobble together an agreement between the caretaker Socialists and "the main opposition parties" to lock in any future government to the austerity programme.
"In the context of a difficult political situation and forthcoming elections, it is essential in Portugal to reach a cross-party agreement among the main parties ensuring that such a programme can be adopted in May."
However, despite the announcement of an agreement on the subject, following the meeting, the Portuguese finance minister declared that his government would not negotiate with the opposition and that it was the responsiblity of the EU and the IMF to do so.
In response, Rehn warned the country: "I trust all political parties of government and opposition realise their major responsibility in overcoming their current difficulties bothe for the sake of their own citizens and financial stability in Europe."
EU officials would not be drawn on which opposition political parties would be chosen to participate in the talks, or how they would be picked.
However, it is thought that the two parties to the left of the Socialists who reject outright all austerity measures would not be involved. The Left Bloc and the Communists together enjoyed support of a fifth of the population until the most recent poll, which put the combined austerity-rejectionist fraction in the parliament on 14 percent. Public sector unions on Friday meanwhile also announced they are to go on strike on 6 May to kick "the IMF out of Portugal".
Defeat for bridging loan request
Germany and its hawkish core-eurozone alliance flatly refused Socrate's request for a bridging loan to carry the country past its general election in June in return for a one-year austerity programme. Berlin's position was also backed up by the European Commission.
Up until this point, analysts have said that a caretaker administration does not have a democratic mandate to negotiate anything other than the terms of a short-term aid package.
But the mood was angry heading into the meeting, with several ministers publicly furious at Socrates for leaving a request for a bail-out to this point and continuing to inject uncertainty into the eurozone, and little sympathy for the democratic niceties of Portugal's situation.
Dutch finance minister Jan Kees de Jager told reporters: "The procedures could have been better. They should have asked for a bail-out at the same time as Ireland [last November]."
Swedish finance minister Anders Borg, in an unusually public dressing down - particularly from a country which lies outside the eurozone, said heading into the meeting there have been "some very irresponsible policies in Portugal."
The comments echo even stronger language the minister used on Swedish Radio: "We have reason to be very critical of the Portuguese government. This is a decision that should have been made in November, December."
"It's been obvious for a long time that this country can't stand on its own two feet".
Commissioner Rehn did however concede: "We may have to do some final adjustment after 5 June."
ECB pulled plug on Portugal
It is also now emerging that out of frustration at the Portuguese prime minister's refusal to apply for a bail-out, the European Central Bank may have deliberately pulled the plug on the country's economy this week in order to force Socrates' hand.
On Monday, Portuguese banks announced they would stop buying government bonds if Lisbon did not seek a rescue, a move widely viewed domestically as the development that pushed Socrates into saying on Wednesday evening he was to request a bail-out.
On Thursday, the head of the country's banking association, Antonio de Sousa, said that he had "clear instructions" from the ECB and the Bank of Portugal to cut off the tap.
"When it became clear that state financing needs implied more funding by banks, banks said this could not be done because they had clear instructions from the Bank of Portugal and ECB to do the opposite, to diminish their exposure and not increase it," he said, according to Reuters.
ECB chief Jean-Claude Trichet on Friday however denied any role in the cut-off: "We didn't force banks or various political forces to do anything."

As eleições e a Europa


Publicado em: O Gaiense, 9 de Abril de 2011 
É irónico que nas eleições europeias quase ninguém estivesse realmente interessado em discutir a Europa e que a Europa tenha entrado de rompante para o centro do debate numas eleições nacionais. Talvez isto sirva para entendermos que a política europeia já não é uma mera questão de política externa, mas está bem no coração da nossa agenda doméstica.
As dificuldades que sofremos são fruto das nossas próprias escolhas políticas. E quando a UE nos impõe no dia a dia um modelo económico falhado, quando inclui nos seus pacotes de "ajuda" inaceitáveis condições de empobrecimento do povo e de protecção do sistema financeiro, em particular dos bancos alemães, fá-lo porque os europeus escolheram governos que defendem e aplicam essas políticas.
Mas na UE começam a levantar-se ventos de mudança. Dada a estrutura institucional da UE e o papel liderante do Conselho, só se pode mudar a Europa a partir dos Estados-membros. No dia 5 de Junho, os portugueses têm a possibilidade não só de mudar o seu país, mas de contribuir para este início de mudança da União, para que esta deixe de ter o rosto arrogante, distante e impositivo que hoje tem e comece a ser uma Europa de progresso social, transparente e solidária com todos os europeus, sobretudo com os que vivem momentos de dificuldade. Uma Europa em que a palavra "ajuda" tenha o significado que vem nos dicionários.

A ameaça da ajuda externa




Publicado em: O Gaiense, 2 de Abril de 2011

Surpreende-me que a expressão “ameaça da ajuda externa” esteja a ser utilizada como se fosse lógica e normal. Penso que, em bom português, uma ajuda é algo que se dá, ou se promete, mas nunca algo com que se ameaça. Ameaça-se com uma faca, um castigo, uma guerra. Ameaçar com uma ajuda não faz sentido; ou se ameaça ou se ajuda, e esta disjunção é exclusiva.

Penso que é de ameaça que verdadeiramente se trata. Quem não conhece, do cinema e da vida, a cena clássica do homem rico que se dispõe ajudar uma jovem rapariga em dificuldades financeiras, ajuda que ela vê como uma ameaça, porque sabe como acaba a história. É esse também o carácter do FMI, sempre em busca de vítimas em dificuldades para poder “ajudar” e conseguir cedências que ninguém aceita em condições normais. Ceder em quê? O que pretendem eles? O nosso património a preço de saldo (privatizações). Melhores condições de exploração dos nossos trabalhadores (alteração de leis laborais). Menos redistribuição de rendimentos (cortes nos serviços públicos e nas prestações sociais).

Um olhar para as anteriores vítimas da “ajuda” pode ser muito esclarecedor. Lula da Silva, esta semana em Portugal, lembrou a experiência dolorosa do Brasil: “o FMI sempre criou mais problemas do que soluções”.

Portugal demande aide financière



Nouvelles du Portugal:

Le gouvernement portugais demande aide financière, deux jours après avoir reçu un ordre dans ce sens des principales banques portugaises


«Le Premier ministre portugais a déclaré la nuit dernière qu'il avait abandonné le principal engagement qu'il avait assumé auparavant pour le peuple portugais: être en opposition avec une intervention de l'UE et du FMI» a déclaré la nuit dernière Francisco Louçã, leader du Bloc de Gauche.

Louçã a mentionné que le gouvernement a abandonné son engagement après avoir reçu un ordre des principales banques du Portugal, qui ont décidé d'étrangler l'apport financier à l'état, et a dit, une nouvelle fois, que si le Portugal est dans une situation aussi difficile ce n'est pas du au fait que le Parlement portugais a décidé de ne pas approuver le nouveau Programme de Stabilité et de Croissance, le 4ème présenté en moins de 12 mois.
Le coordinateur de la commission politique du "Bloco de Esquerda", a rappelé que «en trois décisions économiques désastreuses, qu'un ministre des finances de gauche n'accepterai jamais, le gouvernement s'est arrangé pour dépenser trois fois ce qui est au budget actuel»: un milliard d'euros pour acheter des sous-marins inutiles, à une firme allemande, un milliard que la Télécom portugaise n'a pas payé en taxes et 2 milliards pour le parachute de la banque BNP dont le PDG a été arrêté pour pratiques spéculatives illégales.
Francisco Louçã a affirmé que le gouvernement n'a pas été rigoureux et il a souligné que le Portugal a vécu une décade perdue (les gouvernements Barroso et Sócrates), pendant laquelle la dette publique a doublé, plongeant le Portugal dans une 3ème récession en 10 ans, le ramenant au niveau économique de 2002.

Francisco Louçã a déclaré que «Le Bloco présentera une réponse pour le problème de la dette, pour mobiliser nos potentialités, pour protéger notre économie, de façon que nous puissions nous concentrer sur ce qui est essentiel.»

(traduction Jean & Nicole – PCWB)

Portugal asks for bailout


News from Portugal:

The Portuguese government asks for a bailout two days after receiving an order in that direction from the main Portuguese banks

"The Portuguese prime-minister informed last night that he had given up the main commitment he had assumed before the Portuguese people: to be in opposition to to an intervention of the EU and the IMF", said last night Francisco Louçã, leader of Bloco de Esquerda.

Louçã mentioned that the government gave up its commitment after having received a command from the main Banks in Portugal, who had decided to strangle the financial support to the state, and pointed out again that if Portugal is in such a difficult situation this is not due to the fact that the Portuguese Parliament decided not to approve the new Stability and Growth Programme, the fourth presented in less than 12 months.

The chairman of Bloco de Esquerda's political commission, Francisco Louçã, recalled that "in three disastrous economic decisions, which a left wing finance minister would never accept, the government managed to spend three times what is today's current budget": one billion Euros buying useless submarines to a German company, one billion Euros that the Portuguese Telecom did not pay in taxes and 2 billions for the bailout of the Bank BPN whose CEO has been arrested by illegal speculative mismanagement.

Francisco Louçã affirmed that the Government has not been rigorous and underlined that Portugal has lived a lost decade (governments Barroso and Sócrates), during which the sovereign debt has doubled, sinking Portugal in the third recession in a decade, receding to the economic level of 2002.

Francisco Louçã announced that "the Bloco will present a plan to deal with the debt, to mobilise our capacities, to protect the economy, so that we can concentrate on what is essential".




More news at:

http://www.esquerda.net/

http://www.beinternacional.eu

Que Europa queria este PEC?


Publicado em: O Gaiense, 26 de Março de 2011

Diz-se que a UE exigia o PEC4. É verdade. Mas subjacente a esta referência passa uma ideia da UE como entidade que paira num nível de existência acima da política, acima da disputa que se trava cá por baixo, na vida concreta dos países. As imposições da UE são, então, apresentadas como inevitáveis e indiscutíveis. Este é um engano fatal. Porque as medidas da UE face à crise são opções definidas pelos políticos que constituem o Conselho e o Parlamento Europeu, que ocupam os seus cargos em resultado de eleições onde se confrontaram vários projectos alternativos. Ganhou um deles, é certo. Agora tentam impor a todos esse modelo de austeridade.

Isto até poderia ser considerado normal, no contexto da luta política. O que não é normal, e não é honesto intelectualmente, é apresentar essa opção política como se fosse uma inevitabilidade que decorre, sem alternativa, das condicionantes económicas. Não é. A política da UE é uma política de direita apenas porque a direita ganhou eleições. As opções da UE vão ser completamente alteradas quando os eleitores dos vários países europeus começarem a mudar o sentido dos seus votos. Esta é a regra da democracia. Apresentar meras escolhas políticas como opções inevitáveis é a negação da utilidade e da liberdade do voto popular, um péssimo serviço prestado ao combate à abstenção, uma negação da própria essência da democracia.

O Conselho Europeu do lado de fora





A luta é alegria.


Corrupção parlamentar europeia na sua forma mais pura

Este é um dos três eurodeputados que os jornalistas do Sunday Times aliciaram para fazer emendas legislativas pagas por lóbis.

Pode ver-se aqui: O filme do negócio com as conversas do deputado aceitando encomendas e explicando como actuava.

Quem é o senhor em causa?

Ernst STRASSER
Grupo do Partido Popular Europeu (Democratas-Cristãos)















Curriculum vitae


Doutoramento em Direito na Universidade de Salzburg (1981). Dirigente da planificação estratégica, empresa Umdasch, Amstetten (1990). Sócio administrador, cce-consulting (desde 2005).

Responsável da direcção estadual do Volkspartei na Baixa Áustria (1992-1998).

Membro do conselho municipal de Grieskirchen (1983-1985). Deputado ao Parlamento Estadual da Baixa Áustria (1993-2000); administrador do "Landtagsklub" do Volkspartei da Baixa Áustria (1998-2000).

Ministro federal dos Assuntos Internos da República da Áustria (2000-2004).

Presidente da obra caritativa "Österreichisches Hilfswerk" (desde 1998). Presidente da Associação de Amizade Áustria-Rússia (desde 2003).

Grã-cruz da ordem jordana Al Kawkab Al Urduni. Grã-cruz da ordem papal de São Gregório Magno. Grã-cruz da ordem do Congresso da República da Colômbia. Grande Insígnia de Ouro da Banda de Mérito da República da Áustria.

Sócrates há muitos. Escolhe o teu.








"Golfistas à rasca" já escolheram.

A opção nuclear pode explodir



Publicado em: O Gaiense, 19 de Março de 2011

No próximo dia 26 de Março faz 40 anos que entrou em funcionamento o primeiro reactor da central de Fukushima. A empresa TEPCO, proprietária da central, queixa-se que “a concorrência entre fornecedores de energia se intensificou desde a liberalização do mercado de electricidade” no Japão, aumentando as dificuldades que já tinham tido quando foram colocados fora de serviço todos os reactores da sua central de Kashiwazaki-Kariwa, na sequência do tremor de terra de 2007.

O terramoto e o tsunami são catástrofes naturais. Mas o desastre nuclear que daí resultou é uma catástrofe política, que resulta da opção por uma indústria de produção de energia cujos riscos todos sabem que ninguém sabe como controlar verdadeiramente.

Os lóbis nucleares europeus agitam-se. A opinião pública que, em muitos países, tinha sido conquistada ou, pelo menos, neutralizada face à opção nuclear, começa a duvidar das garantias de segurança que lhe tinham vendido as campanhas políticas da indústria nuclear. Com Chernobyl, os europeus assustaram-se, mas foi-lhes explicado que o nível de exigência técnica da ex-URSS deixava muito a desejar. Agora que o acidente ocorre num país tecnologicamente tão ou mais avançado do que a Europa, num país que definiu na sua “Nova Estratégia de Crescimento” o objectivo de exercer uma liderança internacional nesta matéria, os argumentos começam a faltar.

Männer des Kampfes


Publicado em: O Gaiense, 12 de Março de 2011

Agora que os nossos Homens vão levar a Luta até Düsseldorf, convém desenvolver as versões linguísticas adequadas: Dona Merkel, depois de Sócrates, aqui vão os Männer des Kampfes e a música agora é outra.

Parece-me importante, no contexto da actual crise, que todos os homens e mulheres da luta tenham esta ambição e visão alargada, uma verdadeira eurovisão, porque, se a crise tem uma clara dimensão europeia, a luta também tem de ganhar essa escala para ser verdadeiramente eficaz.

Os Homens da Luta, agora os Männer des Kampfes, levam ao coração da Europa a iconografia de 74. Fazem bem. Quem viveu a Revolução de Abril sabe que aquele foi um dos raros momentos da nossa história recente em que toda a Europa teve os olhos postos em Portugal por boas razões. Em que a comunicação social europeia (e mundial) publicava longas reportagens e análises sobre o nosso país, em que milhares de estudiosos, de curiosos e de activistas se deslocavam a Portugal para tentarem perceber o que por cá se fazia, ou apenas para respirarem um pouco do ar fresco que há tanto tempo lhes faltava nos seus países. Um ar fresco que começa a sentir-se nesta Primavera de 2011, uma nova e refrescante brisa que está a tornar mais respirável o ar pútrido da política nacional.

http://eurovision.ndr.de/teilnehmer/homensdaluta107.html

Um convite para hoje


Publicado em: O Gaiense, 5 de Março de 2011

Neste sábado, 5 de Março, o Porto será palco de uma reunião europeia com uma agenda diferente do habitual: um grupo de especialistas em assuntos europeus discutirá, durante toda a tarde, com activistas sociais, políticos e sindicais vindos dos quatro cantos da União, a forma de concretizar uma “Iniciativa de Cidadania” (IC).
A IC é uma novidade institucional prevista no Tratado de Lisboa, pela qual um milhão de cidadãos da UE pode solicitar à Comissão Europeia que apresente uma determinada proposta legislativa. Trata-se de um novo instrumento político, que está ainda a ser regulamentado, prevendo-se que entre em vigor até ao início de 2012.
Os organizadores da reunião convidam todos os interessados para virem conhecer e debater esta proposta, que se faz num registo de uma Europa mais social. O encontro com o público está marcado para as 19h, naquele que é talvez o mais europeu dos edifícios da cidade do Porto: a Casa da Música.

A resposta à actual crise exige mais e melhores soluções europeias e necessita de mais e melhor participação cidadã. O debate político em Portugal tem sofrido de um défice de perspectiva europeia e de um défice de participação cidadã, mas há sinais animadores de que algo está a mudar em ambos os aspectos. Esta reunião é disso um sinal.


As nossas armas de Khadafi




Publicado em: O Gaiense, 26 de Fevereiro de 2011

A repressão dos manifestantes líbios - de que porventura vimos ainda apenas uma amostra -, apesar de justamente condenada pela UE, está a ser feita, em grande parte, com armas vendidas pelas empresas e Estados da UE. O bloqueio das redes de telemóveis e Internet está a dificultar o resgate dos cidadãos europeus, mas está a ser feito com equipamentos vendidos para esse efeito por empresas da UE, sob autorização dos seus Estados.

No Jornal Oficial da União Europeia (C9, 13-01-2011) acaba de ser publicado o Relatório Anual sobre as exportações de tecnologia e equipamento militares. Vários países da UE, Portugal incluído, autorizaram a exportação de centenas de milhões de euros de equipamentos militares para a Líbia e para os outros regimes da região em conflito com os seus povos.

Dir-me-ão que as exportações são importantes para a recuperação económica. Certamente que sim, mas a estratégia não pode ser a de vender seja o que for, seja a quem for. Em qualquer ramo de actividade, aumenta-se o volume de negócios incentivando a procura; o problema é que, no caso da indústria de armamento, um marketing competente é aquele que incentiva as guerras e o reforço dos arsenais militares e uma política de paz é vista como um sério risco para o negócio, a evitar a todo o custo.

Medicamentos falsificados



Publicado em: O Gaiense, 19 de Fevereiro de 2011

A falsificação de medicamentos é um problema grave: em dois anos, aumentou 384%. Já não é apenas o Viagra e outros "revigorantes" falsificados que circulam, são também medicamentos para o cancro, para doenças cardíacas, o colesterol, a diabetes, numa milionária actividade organizada por redes internacionais. E não é só na venda pela internet: os falsificados entraram já nos circuitos tradicionais de comercialização farmacêutica.


Esta semana, o Parlamento Europeu aprovou uma directiva-quadro, proposta pela eurodeputada portuguesa Marisa Matias, que regula o combate aos medicamentos falsificados. Portugal e os outros 26 Estados-membros farão a seguir a sua transposição para a legislação nacional.

A Comissão Europeia via isto como um problema de distorção de mercado. Mas o problema não é o mesmo que ir à feira comprar roupa de marca a um quinto do preço. O Parlamento Europeu, com apoio do Conselho, alterou a base jurídica da proposta de directiva da Comissão, que deixou de ser uma directiva do mercado, para ser uma directiva de saúde pública. Uma decisão europeia politicamente saudável, para variar.


________________________________________________

EXPOSIÇÃO DE MOTIVOS apresentada por Marisa Matias


A proposta da Comissão destinada a impedir a introdução, na cadeia de abastecimento, de medicamentos falsificados chama a atenção para uma questão que preocupa cada vez mais os cidadãos europeus: a qualidade e a segurança dos medicamentos que consomem. A relatora congratula-se, por isso, com a proposta da Comissão que tem por objectivo lutar contra os medicamentos falsificados, dado tratar-se de uma medida necessária para fazer face a esta ameaça crescente para a saúde e melhor garantir a segurança dos doentes.

O problema

A avaliação de impacto realizada pela Comissão (SEC(2008)2674) refere, entre outros aspectos, as seguintes constatações, particularmente alarmantes:
- Acentuado aumento das apreensões de medicamentos falsificados pelos serviços aduaneiros (2,7 milhões de medicamentos apreendidos nas fronteiras da UE em 2006 e 2,5 milhões em 2007, ou seja, um aumento de 384% relativamente a 2005);

- Tendência para uma evolução da falsificação dos chamados medicamentos "lifestyle" para a falsificação de medicamentos que salvam vidas, como os medicamentos destinados ao tratamento do cancro e de doenças cardíacas, perturbações psiquiátricas e infecções. A utilização destes medicamentos falsificados pode ter consequências fatais.

- Tendência para chegar à cadeia de abastecimento clássica. Para além da Internet, a cadeia de distribuição autorizada é cada vez mais atingida. Dos treze Estados­Membros que dispunham de dados, sete relataram casos de presença de medicamentos contrafeitos na cadeia de abastecimento legal.

Convém sublinhar que, de acordo com o grupo de peritos da OMS, em grande número de países de África e em certas regiões da Ásia e da América Latina, mais de 30% dos medicamentos à venda podem ser falsificados. As estratégias para impedir a introdução de medicamentos falsificados no mercado europeu deveriam ter igualmente um impacto positivo noutras regiões do mundo onde o problema é ainda mais grave.

Os doentes têm de ter a certeza absoluta de que os medicamentos que consomem são realmente os querem consumir. A utilização de medicamentos falsificados pode conduzir ao fracasso terapêutico e colocar vidas em perigo. A relatora considera, por conseguinte, que a protecção da saúde pública contra os medicamentos falsificados deve ser o principal objectivo da directiva. Este objectivo não deve ser comprometido por outros objectivos secundários.

A directiva não deve abordar os direitos de propriedade intelectual nem os direitos de patente, que já são objecto de outros instrumentos legislativos específicos.


Base jurídica dupla

A relatora prefere uma base jurídica dupla para esta directiva. A falsificação de medicamentos é um crime que priva os doentes do tratamento médico de que necessitam e prejudica a sua saúde, podendo mesmo provocar a morte. Por esta razão, o principal objectivo da directiva deve ser a protecção da saúde pública. Este objectivo deve ser reflectido na base jurídica da directiva. Tal está em consonância com o projecto de convenção do Conselho da Europa que coloca a ênfase na saúde pública.

Definições e responsabilidades

Para melhor salvaguardar a rede de distribuição de medicamentos, é crucial dispor de definições claras, não apenas relativamente ao âmbito de aplicação da directiva, mas também aos diferentes intervenientes na cadeia de abastecimento. O que é um medicamento falsificado? O que é uma substância activa ou um excipiente? A proposta da Comissão não proporciona a clareza necessária. O mesmo é válido para as definições dos diferentes intervenientes na cadeia de abastecimento, sendo necessário clarificar as suas funções e responsabilidades. É absolutamente necessário estabelecer uma distinção entre os intervenientes já oficialmente reconhecidos - e que são considerados responsáveis - e os que não pertencem a esta categoria, embora sejam importantes para a responsabilidade da cadeia de distribuição. É, por conseguinte, importante estabelecer uma distinção entre comerciantes e corretores, bem como clarificar as suas funções e responsabilidades. O mesmo é válido para outros intervenientes, como transportadores ou comerciantes paralelos. A directiva deve impedir que se gerem confusões e não deixar margem para o surgimento de zonas "cinzentas". Deve indicar com clareza os intervenientes que podem exercer uma actividade neste domínio e as condições em que o podem fazer. Definições mais claras facilitarão a aplicação da directiva.

Sanções

A falsificação de medicamentos não é um delito menor. Trata-se de uma actividade criminosa organizada que coloca em perigo vidas humanas. As sanções por falsificação devem reflectir este facto e ser equivalentes às normalmente aplicadas por actos ilícitos associados a narcóticos. É crucial reforçar as disposições relativas a sanções contidas na proposta da Comissão.

Dispositivos de segurança

Os Estados­Membros distinguem entre medicamentos sujeitos a receita médica e medicamentos não sujeitos a receita médica, dado que os primeiros comportam maiores riscos para os doentes, tanto no caso de serem falsificados, como no caso de serem tomados indevidamente. Por esta razão, os dispositivos de segurança devem ser obrigatórios para os medicamentos sujeitos a receita médica. Contudo, é necessário reconhecer que os medicamentos só são falsificados se existirem razões económicas para o fazer. Os baixos custos dos medicamentos genéricos tornam menos lucrativa a sua falsificação. A relatora considera, por isso, que, para certos medicamentos genéricos ou categorias de produtos, se pode renunciar aos critérios de desempenho aplicáveis aos dispositivos de segurança, se as conclusões de uma avaliação dos riscos apontarem nesse sentido. A relatora propõe ainda que, num prazo de cinco anos a contar da data de entrada em vigor da directiva em apreciação, se avalie se os dispositivos de segurança devem tornar-se igualmente obrigatórios para os medicamentos vendidos sem receita médica.

Excipientes

Ao tomarem medicamentos, os doentes consomem não apenas substâncias activas, mas também excipientes. As consequências da utilização de excipientes falsificados são bem conhecidas. Entre os casos de consequências graves inclui-se a morte de 89 pessoas em 1995 e de, pelo menos, 59 crianças em 1996, no Haiti, ou a morte de 30 crianças na Índia, em 1998. A relatora inclui, por isso, os excipientes no projecto de relatório. É necessário verificar a qualidade e a autenticidade dos medicamentos.

Vendas pela Internet

A proposta da Comissão não faz referência às vendas pela Internet, considerando-as parte da cadeia de abastecimento ilegal. Tal não tem em conta o facto de as vendas pela Internet estarem legalizadas nalguns Estados­Membros. É sabido que a Internet é um dos principais canais de entrada de medicamentos falsificados no mercado europeu. A relatora optou por incluir no projecto de relatório disposições que permitem fazer face a este importante problema. A primeira prioridade consiste em sensibilizar o público para os riscos associados à aquisição de medicamentos na Internet. É necessário criar programas de informação para sensibilizar os consumidores para a existência de produtos falsificados e o risco de adquirirem medicamentos em canais não autorizados. A segunda prioridade consiste em assegurar que os doentes reconheçam os sítios Internet que respeitam a legislação em vigor. O público teria dificuldade em compreender uma directiva que visa lutar contra a falsificação de medicamentos, mas que não faz referência à Internet, o mais importante canal de entrada de medicamentos falsificados. Encontrar uma solução para este problema é um dos principais objectivos do projecto de relatório.

Informações e relatórios

A criação de uma rede entre a Comissão, a Agência Europeia dos Medicamentos e as autoridades competentes dos Estados­Membros permitiria dispor de mais informação sobre o fenómeno e compreendê lo melhor, a fim de o combater de forma mais eficaz. A Comissão, a Agência Europeia dos Medicamentos e as autoridades competentes dos Estados­Membros informarão anualmente esta rede sobre as acções que empreenderam.

Cooperação internacional

É necessária coordenação entre os diversos organismos nacionais e internacionais envolvidos na luta contra os medicamentos falsificados. É importante melhorar a cooperação internacional e desenvolver mecanismos multilaterais que permitam aos países importadores lançar investigações e identificar a verdadeira origem dos medicamentos contrafeitos que entram nos seus mercados.

Inspecções das importações

A directiva em apreciação centra-se no controlo da qualidade das importações de medicamentos, dado que são uma das principais portas de entrada de medicamentos falsificados no mercado europeu. Por esta razão, a relatora considera fundamental criar um sistema de inspecções que se baseie principalmente nas boas práticas de fabrico já definidas em acordos internacionais. A cooperação internacional já existente e a experiência dos Estados­Membros são elementos essenciais para o desenvolvimento de um sistema de detecção de falsificações mais sólido e eficaz.


Exportações

A proposta da Comissão não faz referência ao controlo e à distribuição de medicamentos falsificados destinados a países terceiros. É difícil explicar a razão pela qual a UE aplica disposições rigorosas aos medicamentos que entram no mercado europeu para poder encontrar os responsáveis no caso de os medicamentos serem falsificados, mas não prevê quaisquer disposições para os medicamentos exportados para países terceiros em África, na América do Sul ou na Ásia. Este facto reduz significativamente as possibilidades de a Europa insistir numa cooperação internacional reforçada. O fabrico e a distribuição de medicamentos da UE destinados a países terceiros devem obedecer aos critérios aplicados à importação. Tal reforçaria o nosso contributo para a luta contra a falsificação criminosa de medicamentos em diversos países terceiros, nos quais, de acordo com a OMS, o problema é bastante grave.

Observações finais

Na directiva em apreciação estão em jogo vários interesses, muitas vezes contraditórios. Para alguns intervenientes, a solução implica a redução de intermediários; outros prefeririam a manutenção dos procedimentos já existentes, sem participação na partilha de responsabilidades ou custos. Alguns defendem que esta directiva deve centrar-se nos riscos dos produtos; outros advogam que se deve centrar nos riscos da cadeia. A relatora está convicta de que a directiva deve ter em conta os diferentes interesses, mas privilegiar o nosso interesse comum - a segurança dos doentes. É este o princípio subjacente às alterações apresentadas no projecto de relatório. 

Não há austeridade para a NATO




[ Imagens do projecto da nova sede da NATO em Bruxelas ]

Publicado em: O Gaiense, 12 de Fevereiro de 2011

Quando chegamos ao aeroporto de Bruxelas e apanhamos o autocarro para o centro da cidade, a primeira paragem é junto à sede da NATO, que nos aparece do lado esquerdo. Mas, se olharmos para a direita, o que vemos é um enorme terreno onde começam as obras de construção da nova sede da Aliança. Esta semana, num encontro do secretário-geral Anders Fogh Rasmussen com a imprensa, foi informado que o custo da obra está estimado em mil milhões de euros.
É um valor significativo para tempos de crise. E para uma organização que se queixa da redução dos orçamentos de defesa na Europa. Rasmussen lembrou que os acontecimentos no Egipto mostraram que não podemos dar a estabilidade por garantida e deixou “um sério aviso” contra os cortes europeus: há dez anos, os norte-americanos pagavam menos de metade dos custos; hoje, a sua comparticipação atinge os 75% e continua a crescer. A NATO é, assim, cada vez mais um assunto dos Estados Unidos.
Os europeus bem podiam aproveitar o pretexto da crise para deixar este amigo da estabilidade a brincar às sedes e às guerras com os seus financiadores transatlânticos e começar de vez a usar os seus recursos de uma forma mais inteligente e mais útil para todos.

A good idea from Mubarak

O lado negro do milagre industrial alemão

Publicado em: O Gaiense, 5 de Fevereiro de 2011

Os tribunais portugueses decidiram acusar os alemães da Man Ferrostaal, empresa do consórcio dos submarinos. Na Alemanha, o presidente foi exonerado e um administrador preso por corrupção na venda de submarinos à Grécia. O Ministério Público de Munique detectou o pagamento de “luvas” e aplicou uma coima de 240 milhões. A Siemens, onde entre 2000 e 2006 foram detectados 1300 milhões de euros de “luvas” pagas, e com vários executivos condenados, pagou quase mil milhões a tribunais norte-americanos para encerrar processos e outro tanto na Alemanha. A MAN foi obrigada a pagar uma coima de 150 milhões. Entre muitos outros casos.
De facto, para haver corruptos que recebem, tem que haver corruptos que paguem. E nisso têm-se destacado as grandes empresas europeias, particularmente alemãs e francesas. O problema é que a corrupção tem sido encarada como um custo aceitável, um factor de competitividade muitas vezes decisivo na luta pelos grandes contratos mundiais e, portanto, não era condenada no mundo dos negócios dos países desenvolvidos. Corruptos eram apenas os que recebiam… Felizmente, agora começam a sentar-se todos juntos no banco dos réus.

Depois da Tunísia, o Egipto






[ Manif de egípcios em Bruxelas de apoio à revolução ]

Publicado em: O Gaiense, 29 de Janeiro de 2011
A revolta popular na Tunísia continua a inspirar os povos da região, igualmente submetidos a regimes opressivos e corruptos. No Egipto, um país que vive num “estado de emergência” contínuo há três décadas, onde a prisão e tortura de opositores é prática corrente, o povo contesta na rua o regime do Partido Nacional Democrático do presidente Hosni Mubarak.
Estes movimentos populares estão a gerar uma enorme incomodidade nos meios políticos do ocidente, nomeadamente na UE, onde aqueles regimes têm sido tratados como bons parceiros. O Acordo de Associação UE-Egipto afirma-se “baseado no respeito pelos princípios democráticos e nos direitos humanos fundamentais expressos na Declaração Universal”. Algo difícil de engolir por quem hoje está na rua em luta precisamente por esses valores e é fortemente reprimido pelo governo.
No campo partidário não estamos melhor: tanto o ditador tunisino Ben Ali e o seu partido RCD, como o egípcio Mubarak e o seu PND são, há muito, membros da Internacional Socialista. O partido de Ben Ali foi expulso da IS só depois de este ter sido expulso do país. O partido de Mubarak mantém a sua qualidade de membro daquela organização, em cujo site não se consegue encontrar uma palavra de solidariedade com o povo em luta. Que valores definem afinal a realpolitik internacional?

Nota: Já depois de escrito e publicado este artigo, a Internacional Socialista, em carta datada de 31 de Janeiro, assinada pelo Secretário Geral Luis Ayala, informa o partido de Mubarak PND que, a partir desse dia, cessa a sua qualidade de membro da IS.

O controlo dos jornalistas na Hungria



Publicado em: O Gaiense, 22 de Fevereiro de 2011

O primeiro-ministro Viktor Orbán esteve no Parlamento Europeu a apresentar a presidência húngara do Conselho da UE. A discussão, contra a sua vontade, centrou-se na crítica à nova lei dos meios de comunicação.
A lei obriga os meios de comunicação a não violar a moral pública e a respeitar a dignidade humana e valorizar a família e as comunidades religiosas, o que tem sido motivo de grande galhofa, já que a senhora Annamária Szalai, nova chefe da Autoridade Nacional para os Media, foi há anos a editora de uma revista porno.



Os jornalistas e os meios serão punidos se a cobertura dos eventos não for considerada objectiva e equilibrada. Como se fosse possível - disse um eurodeputado - Nixon considerar a denúncia do Watergate objectiva, ou Bush entender que a informação sobre Abou Ghraïb era equilibrada, ou Berlusconi achar que os relatos sobre a sua vida respeitam a sua dignidade.
Se os jornalistas tencionam controlar o poder, então o poder tratará de os controlar a eles. É a Hungria de 2011.