Que se lixe a Europa, o que interessa é Portugal. (???)

Que se lixe a Europa, que interessa é Portugal. (???)




Renato Soeiro

Fevereiro de 2014


Em acesas e profícuas discussões nos últimos dias, ouvi vários amigos que muito prezo expressarem, por diversas formas, a ideia geral que está no título deste artigo. E fiquei preocupado. Bem sei que é uma reacção mais ou menos natural, sei mesmo que é porventura a reacção mais comum entre os portugueses para quem a Europa deixou de ser civilização, bom nível de vida e muitos fundos a escorrer para Portugal e passou a ter apenas o rosto da troika, do Barroso e da Merkel, fonte da imposição de uma austeridade sem fim nem finalidade à vista. Sei também que é com este mesmo espírito que muitos portugueses irão enfrentar as eleições europeias, tanto com o seu voto como com a sua abstenção: que se lixe a Europa, o que interessa é Portugal. Mas o problema é talvez mais profundo e sério do que uma mera reacção eleitoral.

Numa das minhas últimas idas a Portugal, encontrei por acaso num café à beira-mar (ver o mar é do que mais sinto falta em Bruxelas) uma pessoa que conheço há anos e que agora tem um cargo numa Junta de Freguesia recém eleita - entrou naquela vaga de fundo que em Gaia virou quase todas as Juntas da coligação PSD-CDS para o PS. Depois da euforia com que todos os socialistas gaienses viveram o seu tsunami eleitoral no concelho, estava moderadamente preocupada com a situação financeira da Câmara, mas sobretudo muito preocupada com a perspectiva que, sentia ela, começava a desenhar-se de a direita poder ganhar as próximas eleições de Maio, depois de tudo o que tinha feito sofrer aos portugueses. "Se eles ganham estas eleições, olha, desisto, este país terá o que merece, passo a dedicar-me à minha Junta, que esses ao menos merecem e é onde sinto que vale a pena o esforço que faço". No fundo, disse-me algo como: que se lixe o país, o que interessa é a Freguesia.

Tenho também encontrado este tipo de argumento, mas a um nível aparentemente mais sofisticado, em Bruxelas, entre colegas que se dedicam a diferentes temáticas das relações da UE com o resto do mundo, seja no âmbito da cooperação, das migrações ou do comércio internacional. Aí o raciocínio ganha uma escala mais larga - que se lixe a África, o que interessa é a Europa, por exemplo - e tem, portanto, um ar menos provinciano, mais moderno e europeísta; mas é só ar, porque no fundo é exactamente o mesmo espírito tacanho e o mesmo raciocínio limitado e egoísta a funcionar e a ditar as conclusões.

Curiosamente, todos estes empenhados políticos partilham, cada um à sua escala, o mesmo sentimento que está na base da abstenção e da recusa da política, que vai crescendo por todo o lado e que tanto os preocupa. Que se lixe a política, o que me interessa é a família ou que se lixe a política, o que me interessa é o trabalho - tal é o argumento dos abstencionistas e dos anti-partidos.

De facto, o raciocínio que está na base de cada uma destas diferentes posturas, nas diferentes escalas (pessoal, família, autarquia, país, Europa) é sempre o mesmo e não é mais do que a recusa de um interesse colectivo mais largo em prol de um colectivo mais restrito. Só muda mesmo é a escala em que cada um acha que a sua acção pode ter alguma eficácia, acompanhada pela recusa ou a negação de todos os âmbitos mais vastos.

Este tipo de argumentos pode aparecer (e aparece) pela voz de políticos de direita, de esquerda ou do centro, mas não deixam de ser sempre um olhar de direita sobre a realidade, um olhar feito de tacanhez, egoísmo e desistência, quando os olhares de esquerda são sempre (deveriam ser) amplos, generosos, solidários e de uma coragem feita de persistência sem limites.

Nas eleições europeias de Maio interessa-nos Portugal, interessa-nos a Europa e até nos interessa a relação da Europa com o mundo. Apesar da desgraçada situação do país, ou até por causa dela, temos todos de saber resistir aos instintos primários de retracção da nossa perspectiva política e de fechamento nos âmbitos restritos onde pensamos poder defender-nos melhor, seja a família, o trabalho, a freguesia ou mesmo o país. Porque essa tacanhez nem sequer passa de uma ilusão, já que deixar campos mais vastos de luta abandonados ao inimigo só faz com que este tenha mais força para atacar os redutos onde pensávamos estar seguros.

1 comentário:

Ana Silva disse...

Os argumentos todos confundidos anti-europa e em prol da auto-defesa local é o resultado da observação dos portugueses em relação à ineficácia dos políticos portugueses que nos representam perante a Europa e também do idealismo europeu que não funcionou. A Europa não funciona e só touxe para Portugal estradas mal feitas, dinheiro mal gasto, negócios fantasmas, tachos custosos e inúteis, mobilidade (certo), mas acima de tudo uma enorme dívida que é preciso pagar (todos pagarão mesmo bufando). Os americanos têm razão quando dizem que os portugueses são como o burro mirandês em vias de extinção, pois o burro é muito giro, mas nunca chegará a cavalo e não pode competir com este na corrida chamada Europa. Hoje no JN li « Bruxelas quer mais cortes salariais em Portugal » (e esta hein ?)