40 anos após o assassinato de Ribeiro Santos


Texto publicado no dossier do esquerda.net sobre os 40 anos do assassinato de Ribeiro Santos




História de um comunicado
(Acerca do assassinato de Ribeiro Santos, publicado na Academia do Porto em 1972)

Ribeiro Santos foi assassinado na tarde de quinta-feira, dia 12 de Outubro de 1972. Quando soubemos no Porto do acontecido, convocámos de emergência uma reunião plenária dos activistas da nossa corrente estudantil.
A reunião decorreu no TUP - Teatro Universitário do Porto, na altura localizado na rua do Carmo, com entrada por um portão entre a GNR e a então Faculdade de Letras. No TUP, organismo com grandes tradições na academia, tinha ingressado uma nova geração de estudantes revolucionários, que muito se dedicaram ao teatro, que começaram a apresentar peças muito politizadas, de autores progressistas, trabalhadas com encenadores de vanguarda. Como vários de nós éramos da Direcção do TUP, um organismo oficial da Universidade, as suas instalações passaram então a funcionar também como uma base logística para os activistas mais à esquerda do movimento estudantil, à falta de instalações associativas e perante a proibição imposta pelas autoridades académicas de utilizarmos as salas das faculdades para nos reunirmos.
A situação era grave e o ambiente da reunião extremamente tenso. Analisámos as informações disponíveis e redigimos um curto comunicado aos estudantes de toda a academia, de teor bastante radical, como o momento exigia. Acordado o texto, faltava decidir como deveria ser assinado e que título lhe havíamos de dar.
Quanto à assinatura, optámos por escrever “A Direcção da Associação de Ciências do Porto e outros estudantes presentes em reunião aberta”. A assinatura era arriscada. Num dos slogans que encerravam o texto dizíamos “Façamos frente à violência da burguesia!” e, em pleno fascismo, num momento em que as tensões estavam ao rubro e a repressão era brutal, um apelo deste teor assinado por uma estrutura legal, uma direcção associativa cujos nomes eram conhecidos das autoridades, era uma aposta forte no confronto.
Mas aceitámos sem hesitar, porque a Associação de Ciências era, na altura, a única estrutura associativa do Porto dirigida pela esquerda revolucionária e, por isso, era um ponto de apoio precioso para a luta. As Associações de Estudantes do Porto tinham sido, até então, dirigidas ou por gente de direita e estudantes “apolíticos”, cujas festas, praxes e irreverências juvenis tanto agradavam ao regime fascista, ou conquistadas por listas mais ou menos afectas ao PCP, que faziam um trabalho meritório de contestação, de luta contra a repressão e de mobilização dos estudantes, mas que nós considerávamos então demasiado chato, moderado e reformista, não correspondendo à vontade de luta dos estudantes e à necessidade premente de acção pelo derrube do governo e pelo fim da ditadura. Tinha sido precisamente no início desse mesmo ano de 1972 que, na Faculdade de Ciências, em que estavam integrados também os dois primeiros anos dos cursos de Engenharia, numas eleições super renhidas entre uma lista de esquerda revolucionária e uma lista reformista afecta ao PCP, a lista “Por uma Universidade Popular” venceu, por apenas 2 votos, a tradicional lista “Por um movimento associativo de massas”, dando lugar à primeira Direcção Associativa da nossa corrente na história da academia (depois desta primeira vitória em 1972, outras se seguiram, resultando em que, no 25 de Abril, as correntes à esquerda do PCP já dirigiam de facto o movimento estudantil do Porto).
Decidida então a assinatura do comunicado, precisávamos de um título. Eu fiz uma proposta.
Por aquela época, ouvia repetidamente, num gravador de fita, o registo de um espectáculo integrado nas comemorações do centenário da Comuna de Paris de 1871, realizado em França, no ano anterior. Nessa gravação, o José Mário Branco lia um famoso poema de Théodore Six, operário de tapeçaria, revolucionário já nas barricadas de 1848, que, deportado, tinha escrito um poema intitulado “Du peuple au peuple”, que foi publicado em forma de cartaz para ser afixado nas ruas de Paris na véspera de estalar a revolta da Comuna. Tantas vezes ouvi essa fita, que acabei por saber de cor (até hoje) esta última parte do poema:
J'ai publié ceci pour pouvoir dire: à tous par tous.
Peuple, médite et souviens-toi
Que tu es force et nombre,
Mais que
Tant que tu seras force et nombre sans idée
Tu ne seras qu'une bête de somme.
J'ai publié ceci pour te dire, peuple,
Que ton émancipation réside dans ta solidarité;
Pour te dire que l'heure la plus sombre
Est celle qui précède l'aurore.
(Publiquei isto para poder dizer: todos por todos.
Povo, medita e lembra-te
Que tu és força e número,
Mas que
Enquanto fores força e número sem ideias
Serás apenas uma besta de carga.
Publiquei isto para te dizer, povo,
Que a tua emancipação reside na tua solidariedade;
Para te dizer que a hora mais sombria
É a que precede a aurora.)

Não seria aquela hora, para nós estudantes, “a hora mais sombria”? A PIDE tinha assassinado um estudante a tiro dentro de uma Faculdade e isso não tinha acontecido nunca (a última morte de um estudante pela polícia, ocorrida no Porto, datava já de 28 de Abril de 1931, dia em que uma intervenção policial, ocorrida precisamente na parte da frente do edifício em que estávamos naquele momento reunidos, causou a morte ao estudante João Martins Branco).
A hora era, sem dúvida, sombria e eu, que adorava aqueles dois últimos versos do poema da Comuna, resolvi propô-los como título do nosso comunicado: “A hora mais sombria é a que precede a aurora”.
Gerou-se acesa discussão. Entre outros, o José Pacheco Pereira (se a memória não me atraiçoa), demoliu completamente a minha proposta com um conjunto de argumentos racionais inatacáveis: que o título era triunfalista, que criava ilusões nas massas de que o fim do fascismo (a aurora) vinha já aí, que não havia qualquer indicador sério que o fizesse prever, que não ajudava a preparar o povo para aguentar a luta dura e prolongada que ainda seria necessária, no fundo, que o título era contraditório com o próprio texto do comunicado. Racionalmente, ele parecia estar certo e eu dei-lhe razão em quase tudo. Apesar disso, decidi insistir na minha e manter a proposta. Foi portanto submetida a votação, naquele tenso plenário de activistas. E, surpreendentemente, ganhou. Acabada a reunião, escrevi o título à mão no stencil, ligamos o velho policopiador Gestetner e começamos a imprimir milhares de panflos noticiando - sempre em maiúsculas para acentuar a gravidade da situação - o assassinato de Ribeiro Santos.
No comunicado convocávamos um meeting para o átrio da Faculdade de Ciências, no edifício dos Leões, para a terça-feira, dia 17. Tinha-se conseguido um acordo de todas as correntes políticas e de todas as estruturas sobre a convocação deste meeting.
O meeting realizou-se com algumas centenas de estudantes, mas viria a correr menos bem, não só devido às ameaças do reitor e à repressão policial, mas também devido a alguma confusão lançada entre os estudantes. Mas isso são questões da história do movimento estudantil e da luta entre as diferentes correntes políticas que actuavam na altura, questões que podem com proveito ser revisitadas noutro âmbito, mas que não cabem neste artigo. Saídos do edifício dos Leões, partimos em manifestação pela rua de Cedofeita, onde nos chocámos com a polícia que vinha ao nosso encontro a partir da esquadra situada mais à frente naquela rua. Foi um dia importante para a nossa luta.

Hoje, sabemos que, felizmente, a “aurora” afinal sempre veio a seguir àquela hora mais sombria, dezoito meses depois. Os estudantes presentes naquela reunião no TUP, os que aprovaram o título do comunicado, talvez o tenham feito seduzidos pela qualidade literária da frase, bastante superior às alternativas, das quais provavelmente já ninguém se lembra, e isso já seria interessante e digno de nota. Mas, provavelmente, o que nos levou a escolher um título tão “triunfalista” terá sido mesmo o nosso sentimento da urgência daquele triunfo, a firme convicção de que não era possível mais aguentar a forma como o povo era tratado por aqueles governantes, de que algo tinha que ser feito, que o governo estava a chegar ao fim. Como, de facto, aconteceu.
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Escrevo esta nota em Outubro de 2012, num momento em que os portugueses estão a viver uma hora sombria, provavelmente a hora mais sombria deste Portugal democrático. Não seria altura de nos reunirmos para escolhermos o título de um novo comunicado ao país? É que eu tenho uma proposta a apresentar. Pode ser que dê sorte.

1 comentário:

Arselio Martins disse...

Gostei do cheiro de democracia na escrita e aprovação dos textos: coisas do associativismo na faculdade de ciências naquele tempo. É um cheiro que guardo na minha memória. Só guardo cheiros. Talvez pela força do cheiro dos cavalos:-) então vizinhos de tudo e todos. Já a cronologia me atrapalha, até porque penso que já tinha partido e ao mesmo tempo ainda lá estava ....