O cipriota turco Murat
Kanatli, meu colega da Comissão Executiva do partido da Esquerda Europeia, foi
preso e condenado a 10 dias de cadeia por se recusar participar nos exercícios
militares anuais obrigatórios na parte norte da ilha, ocupada pela Turquia.
O transporte ferroviário no coração da luta europeia.
Quando o governo português e o "governo" da UE se juntam para tentar entregar o transporte ferroviário à voragem das multinacionais do sector, deste lado também tratamos de nos juntar para o impedir.
Estrasburgo, Parlamento Europeu, 25-02-2014
Estrasburgo, Parlamento Europeu, 25-02-2014
De manhã há quem comece os preparativos para sabe-se lá bem o quê...
Às 13 horas, chegam ferroviários de vários pontos da Europa.
"Agir, Réagir, Accomplir" diz no edifício.
É precisamente o que estamos a fazer.
As eurodeputadas do Bloco a ouvir o povo, como lhes compete...
... e a participarem na luta.
A manif terá algum efeito no voto do PE? Veremos.
Que se lixe a Europa, o que interessa é Portugal. (???)
Que se lixe a Europa, que interessa é Portugal. (???)
Renato Soeiro
Fevereiro de 2014
Em acesas e profícuas discussões nos últimos dias, ouvi vários amigos que muito prezo expressarem, por diversas formas, a ideia geral que está no título deste artigo. E fiquei preocupado. Bem sei que é uma reacção mais ou menos natural, sei mesmo que é porventura a reacção mais comum entre os portugueses para quem a Europa deixou de ser civilização, bom nível de vida e muitos fundos a escorrer para Portugal e passou a ter apenas o rosto da troika, do Barroso e da Merkel, fonte da imposição de uma austeridade sem fim nem finalidade à vista. Sei também que é com este mesmo espírito que muitos portugueses irão enfrentar as eleições europeias, tanto com o seu voto como com a sua abstenção: que se lixe a Europa, o que interessa é Portugal. Mas o problema é talvez mais profundo e sério do que uma mera reacção eleitoral.
Numa das minhas últimas idas a Portugal, encontrei por acaso num café à beira-mar (ver o mar é do que mais sinto falta em Bruxelas) uma pessoa que conheço há anos e que agora tem um cargo numa Junta de Freguesia recém eleita - entrou naquela vaga de fundo que em Gaia virou quase todas as Juntas da coligação PSD-CDS para o PS. Depois da euforia com que todos os socialistas gaienses viveram o seu tsunami eleitoral no concelho, estava moderadamente preocupada com a situação financeira da Câmara, mas sobretudo muito preocupada com a perspectiva que, sentia ela, começava a desenhar-se de a direita poder ganhar as próximas eleições de Maio, depois de tudo o que tinha feito sofrer aos portugueses. "Se eles ganham estas eleições, olha, desisto, este país terá o que merece, passo a dedicar-me à minha Junta, que esses ao menos merecem e é onde sinto que vale a pena o esforço que faço". No fundo, disse-me algo como: que se lixe o país, o que interessa é a Freguesia.
Tenho também encontrado este tipo de argumento, mas a um nível aparentemente mais sofisticado, em Bruxelas, entre colegas que se dedicam a diferentes temáticas das relações da UE com o resto do mundo, seja no âmbito da cooperação, das migrações ou do comércio internacional. Aí o raciocínio ganha uma escala mais larga - que se lixe a África, o que interessa é a Europa, por exemplo - e tem, portanto, um ar menos provinciano, mais moderno e europeísta; mas é só ar, porque no fundo é exactamente o mesmo espírito tacanho e o mesmo raciocínio limitado e egoísta a funcionar e a ditar as conclusões.
Curiosamente, todos estes empenhados políticos partilham, cada um à sua escala, o mesmo sentimento que está na base da abstenção e da recusa da política, que vai crescendo por todo o lado e que tanto os preocupa. Que se lixe a política, o que me interessa é a família ou que se lixe a política, o que me interessa é o trabalho - tal é o argumento dos abstencionistas e dos anti-partidos.
De facto, o raciocínio que está na base de cada uma destas diferentes posturas, nas diferentes escalas (pessoal, família, autarquia, país, Europa) é sempre o mesmo e não é mais do que a recusa de um interesse colectivo mais largo em prol de um colectivo mais restrito. Só muda mesmo é a escala em que cada um acha que a sua acção pode ter alguma eficácia, acompanhada pela recusa ou a negação de todos os âmbitos mais vastos.
Este tipo de argumentos pode aparecer (e aparece) pela voz de políticos de direita, de esquerda ou do centro, mas não deixam de ser sempre um olhar de direita sobre a realidade, um olhar feito de tacanhez, egoísmo e desistência, quando os olhares de esquerda são sempre (deveriam ser) amplos, generosos, solidários e de uma coragem feita de persistência sem limites.
Nas eleições europeias de Maio interessa-nos Portugal, interessa-nos a Europa e até nos interessa a relação da Europa com o mundo. Apesar da desgraçada situação do país, ou até por causa dela, temos todos de saber resistir aos instintos primários de retracção da nossa perspectiva política e de fechamento nos âmbitos restritos onde pensamos poder defender-nos melhor, seja a família, o trabalho, a freguesia ou mesmo o país. Porque essa tacanhez nem sequer passa de uma ilusão, já que deixar campos mais vastos de luta abandonados ao inimigo só faz com que este tenha mais força para atacar os redutos onde pensávamos estar seguros.
Essa tal coligação, vista da Europa
Essa tal coligação, vista da Europa
Renato Soeiro
2014-02-05
Há quem, com a melhor das intenções unitárias - que entendo e partilho -, lamente que tal não se venha a concretizar. Mas penso que este assunto da coligação tem sido analisado numa perspectiva exclusivamente interna ou nacional, o que talvez seja insuficiente ou mesmo desadequado, dado o tipo de eleições de que se está a tratar. Visto de uma perspectiva europeia, o assunto ganha uns contornos diferentes e um pouco estranhos. Por três razões.
Primeira razão: os grupos parlamentares
As eleições de Maio destinam-se a eleger deputados europeus. Os deputados europeus organizam-se por grupos parlamentares que, apesar de todos eles incluírem no seu seio uma grande diversidade de pontos de vista, correspondem, cada um, a uma certa visão geral comum dos problemas políticos, económicos e sociais que afectam os europeus.
Os grupos parlamentares serão mais fortes ou mais fracos de acordo com o apoio que for dado pelos eleitores às listas de deputados que neles se vão integrar. Seria assim muito estranho que os votos numa mesma lista de candidatos alimentassem dois grupos parlamentares concorrentes[1]. Isto pressupondo que dessa hipotética lista de coligação sairiam deputados para o GUE/NGL, onde está o Bloco, e também para os Verdes, onde actualmente está o fundador do Livre[2].
No nosso país, o que tem acontecido é precisamente o contrário: não uma mesma lista a eleger deputados para diferentes grupos, mas tem-se dado o caso de diferentes listas, de diferentes partidos, terem elegido deputados para um mesmo grupo parlamentar. Foi o caso dos eleitos do PSD e do CDS, que concorreram separados mas confluíram no grupo parlamentar europeu do PPE e dos eleitos do Bloco e do PCP que, depois de campanhas independentes, foram para o mesmo grupo parlamentar, o GUE/NGL. Mas, quem votou em qualquer uma destas listas tinha informação disponível, à partida, sobre o grupo parlamentar europeu para que o seu voto estaria a contribuir.
Segunda razão: os partidos europeus
Nas próximas eleições europeias, pela primeira vez, os diferentes partidos europeus indicarão antecipadamente os seus nomes para o cargo de presidente da Comissão Europeia, que funcionarão na campanha como porta-vozes a nível europeu de todas as listas que os apoiam. Não iremos aqui analisar o alcance, a importância, o significado e as vantagens ou desvantagens desta inovação. Mas apenas lembrar que nestas eleições haverá uma componente europeia em debate aberto, com diferentes visões e propostas políticas alternativas, apresentadas em confronto directo pelas pessoas que os diferentes partidos elegeram para os representar nesta batalha eleitoral.É sabido que o partido da Esquerda Europeia, a que pertence o Bloco de Esquerda, escolheu o líder do Syriza - Alexis Tsipras - para desempenhar esse papel nesta campanha, prevendo-se que dê entrevistas e participe em debates a nível europeu entre os diferentes candidatos e intervenha nos vários países em comícios das forças que o apoiam[3]. O partido europeu dos Verdes também já escolheu os seus nomes - José Bové e Ska Keller - para fazerem o mesmo.
Terceira razão: os projectos europeus
Obviamente que os diferentes grupos parlamentares europeus, e sobretudo os diferentes partidos europeus e os diferentes porta-vozes para a campanha europeia, são apenas expressões institucionais de projectos políticos diferentes e de diferentes respostas para os problemas que a Europa enfrenta. E essa é a diferença que realmente conta neste caso.
Não podemos neste pequeno texto detalhar as diferenças entre a linha política e as propostas dos Verdes e da Esquerda Europeia, que são aliás conhecidas. Mas importa questionar como poderia essa diferença de projectos europeus reflectir-se na campanha da tal coligação? Ou através de uma forte dissonância, com os candidatos a fazerem discursos e apresentarem propostas contraditórias, o que poderia tornar a sua mensagem completamente incompreensível para quem os ouvisse, ou então através do silenciamento das diferenças, com discursos que fossem meras repetições de generalidades ou superficialidades, sem ir ao âmago dos problemas e das soluções propostas, o que tornaria a campanha numa inutilidade para o tão necessário e difícil esclarecimento da população sobre os assuntos europeus e sobre o que está verdadeiramente em causa neste momento crucial que atravessamos.
As coligações fazem-se sempre entre entidades diferentes, é um facto[4]. Mas convém que tenham um mínimo de coerência e comunhão de objectivos para poderem ser politicamente úteis e não serem vistas como um mero negócio de conveniência para conquista de lugares.
[1] Embora isso já tenha acontecido num ou outro país, em circunstâncias muito específicas.
[2] Já muito foi dito sobre a mudança política assumida pelo Rui Tavares ao optar, a meio do mandato, por se passar para o grupo dos Verdes, saindo do GUE/NGL para onde se tinha comprometido ir antes e durante a campanha eleitoral de 2009. E não foi por este grupo ter mudado de política, já que o GUE/NGL não mudou em nada ao longo da legislatura (pelo contrário, uma das críticas que pode ser feita a este grupo parlamentar é de nunca mudar nada, mesmo aquilo em que talvez se justificassem umas mudançazitas...). Também não foi por qualquer limitação à sua liberdade, que o GUE/NGL é um grupo confederal sem disciplina de voto, onde reina total liberdade, os seus deputados podem dizer e fazer o que quiserem, votar como quiserem, acontecendo por vezes que, sobre o mesmo assunto, há votos a favor, contra e abstenção, sem que daí resulte qualquer problema interno. Nem o grupo mudou, nem o deputado foi constrangido a qualquer atitude política que lhe pudesse causar desconforto.
É de referir que, pela mesma altura em que o Rui saiu do grupo, uma sua colega eurodeputada holandesa saiu do seu partido nacional - não era independente -, mas manteve-se (até hoje) sem qualquer problema dentro do GUE/NGL, ao lado do outro deputado do seu partido.
[3] A figura escolhida, Alexis Tsipras, não cria com certeza qualquer problema de aceitação para os membros do 3D, da Renovação e outros independentes de esquerda.
Estranho céu de Paris
Numa madrugada de céu absolutamente limpo, sem uma única nuvem, a luz rasante do nascer do sol em Paris revela de uma forma assustadora os traços deixados pela passagem dos primeiros aviões que atravessam a cidade. E o dia ainda está só a começar…
Todos sabemos que os aviões são uma fonte preocupante de poluição mas vê-la assim, tão evidente diante dos nossos olhos, tira-nos ainda mais a vontade de viajar.
O Porto na rota dos grandes debates europeus
A cidade do Porto foi escolhida para acolher este ano, entre os dias 27 e 29 de junho, a Universidade de Verão do Partido Popular Europeu (PPE) a que pertencem o PSD e o CDS.
Dias mais tarde, de 3 a 6 de Julho, vai ter lugar, também no Porto, a Universidade de Verão do Partido da Esquerda Europeia, a que pertence o Bloco de Esquerda.
O Porto estará assim, neste verão, na rota dos grandes debates sobre o futuro da Europa.
De um lado estará o partido que tem conduzido os destinos da União nos últimos anos e que trouxe as nossas sociedades ao estado em que estão hoje. Pretendem agora aprofundar esse caminho.
Do outro lado estará o partido das lutas e da resistência contra estas políticas, empenhado em definir as linhas de alternativa para saída da crise e a construção de uma outra Europa ao serviço dos trabalhadores e de todos os cidadãos.
Dez meses depois, em Maio de 2014, ambos irão a votos. A voz do povo que marcha nas ruas vai enfim medir-se nas urnas com as forças do poder ao serviço dos grandes interesses, as vítimas contra os carrascos, o trabalho contra o capital, os direitos contra a austeridade, os serviços públicos para todos contra as privatizações e os favores aos grandes negócios de muito poucos.
Nas próximas semanas, haverá dois Portos que esperam por ti.
Escolhe o teu lado.
Escolhe a tua Universidade de Verão.
Podes aceder ao programa aqui.
Para te inscreveres, envia a ficha de inscrição para info@european-left.org
Gente da mesma rua
Publicado em: O Gaiense
Por vezes, ligamos a televisão e não conseguimos de imediato perceber de que país estão a falar. Vemos gente, muita gente, na rua a protestar: o mesmo aspecto, os mesmos cartazes, a mesma polícia a dispersá-los com os mesmos equipamentos e as mesmas técnicas. Esta semana poderia ser em Sófia ou noutras cidades búlgaras, contra a nomeação do novo responsável pela segurança nacional. Ou em São Paulo, no Rio ou alhures no Brasil, por causa do aumento de vinte centavos nos transportes. Ou em Atenas, por causa do fecho da televisão. Ou em Istambul, contra a destruição de um parque para construir um centro comercial.
Como poderia ter sido em Lisboa ou no Porto, por causa de mais uma medida da troika e do governo. Ou em Madrid, contra a austeridade. Ou em Londres, contra o G8. Ou em Nova Iorque, onde se ocupou Wall Street. Ou no mundo árabe, onde a primavera derrubou vários governos.
Em cada caso, o motivo concreto pode ser específico e bem determinado, mas isso é apenas a faísca que incendeia a pradaria. Porque há uma razão comum, muito profunda, que alimenta este reaparecimento massivo dos povos nas ruas das suas cidades, parecendo-se cada vez mais uns com os outros. É uma idêntica e sofrida razão de queixa contra o mesmo sistema iníquo que, apesar das nuances nacionais, tem servido em todo o lado para enriquecer a mesma classe privilegiada à custa da exploração das mesmas vítimas e usando a mesma corrupção.
Por isso, no fundo, somos todos gente da mesma rua. E a televisão está, todos os dias, a ajudar-nos a sentir assim.
O poder da televisão
Publicado em: O Gaiense, 15 de Junho de 2013
Com a troika presente no país para mais uma das suas famosas avaliações, com as macabras exigências que sempre as acompanham, o governo grego decidiu numa manhã que à meia-noite desse mesmo dia acabavam as emissões das televisões e rádios públicas do país. À meia-noite cortou o sinal e mandou para o desemprego 2655 trabalhadores. Para cortar custos, disse o ministro.
Os trabalhadores ocuparam a televisão e continuaram a fazer o seu trabalho, o povo saiu para a rua e envolveu o edifício da ERT (a RTP lá do sítio) com uma massa protectora contra uma possível invasão. Canais privados de rádio e tv asseguram a retransmissão da ERT. Apesar de estes não custarem um cêntimo ao Estado, foram encerrados pela sua ousadia. Numa atitude de grande impacto internacional, a União Europeia de Radiodifusão, a que pertence a RTP, disse que o governo grego estava a exercer a pior forma de censura e forneceu os meios técnicos para a retransmissão internacional da programação que os trabalhadores da ERT continuam a fazer.
É bem possível que a direita grega tenha cometido um fatal erro de avaliação e, com esta atitude, tenha desencadeado o processo de encerramento do próprio governo.
Pode ser que sirva também de lição para Portugal. Lembram-se do que Passos Coelho e Miguel Relvas tentaram fazer com a RTP? Em Maio do ano passado, Passos anunciou a venda a privados até ao fim de 2012 e confirmou Relvas como líder do processo; pouco depois, adiada a privatização, este veio anunciar "um ambicioso processo de reestruturação muito exigente e doloroso". A seguir, foi posto fora do governo e nós ainda temos a RTP. Que, porém, nunca estará segura enquanto a troika andar por cá e tivermos um governo de fanáticos, semelhante ao grego, para executar as suas ordens.
ERT resiste
Emissão da televisão grega
após o fecho decretado pela troika e pelo governo de coligação
http://www.zougla.gr/Controls/livecamera2/article/flash-camera-4
http://www.zougla.gr/Controls/livecamera2/article/flash-camera-4
Transportes gratuitos?
Publicado em: O Gaiense, 8 de Junho de 2013
E se não precisássemos de comprar bilhete nem passe para andar nos transportes públicos?
A ideia pode parecer bizarra ou utópica, mas a experiência de transporte público gratuito já existe em algumas cidades da Europa há alguns anos. Existe em cidades nórdicas, entrou este ano em vigor na capital e outras duas cidades da Estónia, existe na Bélgica, na Polónia, na Eslovénia, na Rússia e, mais perto de nós, na Espanha e na França.
Será que isto poderia alterar o uso que fazemos do transporte colectivo? Que impacto teria na qualidade de vida das populações? E na fluidez do tráfego urbano, na qualidade do ar, na forma como vivemos a cidade? Será economicamente sustentável para as autarquias que o promovem ou para o Estado? Como se financia? A gratuitidade deve ser geral ou só para alguns utilizadores? Em toda a rede, ou só em algumas linhas ou alguns modos de transporte?
A boa notícia é que vamos poder colocar directamente estas e outras perguntas a quem as sabe responder. Magali Giovannangeli, a presidente do agrupamento de municípios do Pays d’Aubagne e de l’Etoile, no Sul de França, que estabeleceu a gratuitidade dos transportes em 2009, vem a Portugal explicar como tem corrido esta experiência numa área com 100 mil habitantes. Estará no Porto, na Universidade de Verão da Esquerda Europeia, que vai ter lugar no Estádio do Dragão de 3 a 6 de Julho, para responder a todas as nossas (e vossas) perguntas.
A entrada é livre.
E gratuita, como os transportes em Aubagne.
Escrevo-te em cima do capô de um carro da polícia derrubado. / I am writing to you on a motor hood of a knocked-over police car.
Carta recebida agora mesmo de um amigo da Confederação Sindical Progressista em Istambul:
LIKE A TREE, LIKE A FOREST IN TAKSIM SQUARE
My trade union is part of a platform together with professional associations and neighborhood organizations. This platform protests the construction work in Taksim that will demolish the park there. Therefore, I was following the related campaigns on Taksim Square.
When I heard that bulldozers came and the trees in the park were cut, I ran to the park. Instead of shutting down the illegal construction – the court revoked the construction project- the police, used tear gas against people who want to save the trees.
First night, we took my tents and sleeping bags and went to the park. We sang and chatted till dawn. In the evening, thousands of people were gathered. The concert was continuing on the stage. We were discussing urban regeneration, environmental destruction, human rights and workers rights. The highlight of all these discussions was that they are all the result of government policies. An ever-changing and growing committee was established.
When I woke up in the morning the camp was drowned into tear gas and everyone was running around. The police set the tents on fire. They uprooted the saplings that were planted a day before. The bulldozers were working under the protection of riot police.
We did not want to get revenge from police. Someone was reading a novel to the police with the help of a megaphone that was saved from the fire. Another one was asking “why did you set my guitar on fire?” but by singing.
When we succeeded in entering the park we set up bigger tents. In the evening there were tens of thousands people in the Square. Renowned musicians cancelled their concerts and came to the park.
People from various views came together… people and workers on strike from regions that were harmed with the corporations’ and government’s thirst for profit… Football fans, radical left parties, student organizations, feminists, anarchists, vegans…
The following night we were better prepared. The garbage was taken periodically. Volunteer security staff was visiting patrol. Women were able to walk comfortably in the camp area. Government’s new alcohol regulations converted drinking to a political action. People were chanting slogans, on the other hand they were singing songs, and drinking.
Towards the morning hundreds of goggles, gas masks, lemon, vinegar, home-made anti-tear gas solutions prepared by stomach pills were distributed. There were thousands of people in the park when the police attacked at 5 o’clock in the morning. There were no warnings and suddenly we were unable to see anything. We evacuated the park inline with the plan we made earlier.
Clashes in the street continued till morning. I managed to sneak in the park quietly getting advantage of the fatigue of the police. I watched the Bosphorus sipping my tea in the shadow of a tree. I hope it won’t be the last time I see this view.
The protestors tried to enter the park by gathering in back streets again and again. The police prevented them by using excessive use of force. The whole city turned into a rally arena. Some demonstrators walked the bridge that connects Asia and Europe.
So, who are these people that gathered in the square? It won’t be true to say that these people have common views and common aims. The only common thing was they were angry to the government… The police violence against the youth who wanted to protect the trees triggered people and all the people who are against the government were out on the streets.
Thousands of women and men who have not participated in a political demonstration before clashed with the police till late at night. The entered a new demonstration without event having breakfast. With their home-made gas masks they revolted against the police sometimes by singing, sometimes by swearing. There were demonstrators from wealthy families, but also unemployed people… From Muslim associations to socialist parties many different groups were shoulder to shoulder…
People, who soaked refuge in a barricade, were tweeting, people uploading photos to Instagram with a police helmet. Pupils were drawing nasty graffitis addressing to the Prime Minister. People drinking beer for a little rest… I met a couple who were making plans for their wedding in the telephone booth where I sheltered during a rubber bullet rain.
In the past five days, growing number of demonstrators are having fun and demonstrating at the same time without sleeping or resting. The most chanted slogan is “Resign Government!” Police violence is not driving them away. Fear is defeated now. We learned to raise our voice when we are angry. Some people are fighting, some are dancing. Some are attacking around in insobriety; some are collecting the garbage and treating the street animals.
I do not know what is going to happen tomorrow! But today is a new day and we are all new people.
What am I doing now? While ten thousand of demonstrators are asking PM to resign with several different reasons, I am writing to you on a motor hood of a knocked-over police car.
A concorrência contra a economia
Publicado em: O Gaiense
O presidente do Banco Europeu de Investimento veio a público acusar a Comissão Europeia de bloquear o montante de mais de mil milhões de euros que o BEI tem disponível para financiamento à economia portuguesa através das PME. O caso é sério, que não é nada frequente o presidente de uma instituição europeia ter este tipo de franquezas ou desabafos públicos contra outra instituição.
A Comissão já reagiu, explicando que a concessão pelo Governo de garantias aos bancos nacionais para fazerem face às exigências do BEI no empréstimo são consideradas ajudas de Estado que violam as regras da concorrência, aquela estrita ortodoxia que proíbe qualquer intervenção do Estado na economia. É a mesma regra que tínhamos visto recentemente bloquear a vida dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo.
A Comissão não quer ceder aqui, porque este princípio lhe tem sido essencial para atingir outros fins mais importantes. Um dos grandes objectivos é a entrega a privados do negócio dos serviços públicos, como a água, a elecricidade, os correios, a televisão, o transporte aéreo e ferroviário, etc. Ora, acontece que a Comissão não tem mandato, nem autoridade, nem força para obrigar os Estados Membros a privatizarem esses serviços. Como procede então? Primeiro, no âmbito das suas competências referentes à construção do mercado interno, obriga os Estados a abrirem aqueles sectores de actividade a novos concorrentes num regime de mercado aberto; a seguir, ao abrigo da lei da concorrência, impede as ajudas do Estado às suas próprias empresas, enviando-as indefesas para a disputa com empresas privadas que têm todas as ajudas necessárias dos seus accionistas. E depois, espera que a vida faça o resto.
Pós-troika, já!
O Conselho de Estado discutiu o pós-troika (ninguém sabe em que termos, que o contributo dos ilustres da nação é para mero consumo interno de Belém). Foi uma reunião muito útil para o Presidente se dotar de informação relevante para basear a sua inacção.
A verdade é que por todo o lado se discute o pós-troika, mais concretamente, a forma de nos vermos livres das imposições da dita, quanto antes melhor, para podermos finalmente recuperar o país devastado pelo tornado da austeridade. Já se sabe que, quando a troika sair, todos os nossos indicadores (défice, dívida, desemprego, falências, etc.) estarão pelas ruas da amargura. Um caso de sucesso, como diz o ministro das Finanças alemão.
Mas há dois pós-troika possíveis. Um seria um pós-troika podre, tipo "evolução na continuidade", daquela forma como o marcelismo foi, no final dos anos sessenta, um pós-salazarismo, mantendo os fundamentos do sistema, num processo de contínua degenerescência nacional. Tivemos de resolver o assunto com a revolução de Abril.
A outra possibilidade é um pós-troika a sério, que corte com a lógica desta política e demita os seus promotores, mudando de vida para reconstruirmos o país numa base minimamente decente.
Se é assim, por que haveríamos de esperar por Junho de 2014? Os capitães de Abril não esperaram pelo fim do mandato de Marcelo Caetano, porque sabiam que, a cada mês que passasse, Portugal estaria pior. Hoje também, há que cortar o mal pela raiz e passar ao pós-troika quanto antes. Pós-troika que quer dizer: pós-Passos, pós-Gaspar, pós-Portas e que será também, no fundo, um pós-Cavaco.
E a demissão do ex-líder do PSD e ex-primeiro ministro, ninguém pede?
Publicado em: O Gaiense, 18 de Maio de 2013
A França entrou em recessão, a Itália está um caos e Portugal é aquela desgraça que todos sabemos. No entanto, é uma francesa, um italiano e um português que andam a impor na Europa as receitas da austeridade. A troika não são aqueles três senhores de fato escuro e cara de pau que vemos nos telejornais; esses são apenas três funcionários — muito ironicamente, três funcionários públicos — que cumprem as ordens de Christine Lagarde, Mario Draghi e Durão Barroso, esses sim, os verdadeiros rostos da troika, três latinos da Europa do sul.
É algo incoerente que tanto se ataque a senhora Merkel e se responsabilize a Alemanha pelas políticas desastrosas que estão a ser levadas a cabo na UE (e eu sou um deles, e convicto, como o leitor regular destas crónicas já deve ter notado) e que tanto se ataque as políticas da troika, mas se deixe mais ou menos em paz os três responsáveis diretos dessas políticas.
É incoerente que tanta gente (eu incluído) peça a demissão do líder do PSD e primeiro ministro Passos Coelho por aplicar a política da troika e ninguém peça a demissão do ex-líder do PSD e ex-primeiro ministro Durão Barroso por definir e impor essa mesma política, que está a arruinar Portugal. Muitos dirão: Barroso não manda nada, só faz o que manda a chanceler. Mas esse não seria, só por si, motivo suficiente para pedir a sua demissão? Se é ele que manda, peça-se a demissão porque a sua política está a ser um desastre. Se não manda nada, peça-se a demissão porque os tempos que correm exigem na UE políticos com coragem e não fantoches.
Nesta onda de pedido de demissões também tem que haver alguma justiça redistributiva...
Os infiltrados
Publicado em: O Gaiense, 11 de Maio de 2013
E se Pinto da Costa se fizesse eleger presidente do Benfica por um mandato e aproveitasse para vender ao Porto a preço de saldo os melhores jogadores, despedisse funcionários vitais para o clube e concessionasse o Estádio da Luz para campo de treinos do Sporting?
Algo de semelhante se está a passar no país. Um grupo de representantes do sector privado da economia, com treino específico na forma de defender esses interesses, fez-se eleger ou nomear para dirigir a coisa pública. Ocupam cargos no governo e na administração, a partir dos quais transferem tudo o que podem (que é de todos nós) para as mãos dos seus.
Se o serviço postal privado é que é bom, porque não vão trabalhar para lá e deixam em paz os nossos Correios, que prestam um serviço de proximidade, empregam muita gente e ainda por cima dão lucros de milhões? Se o ensino, a saúde, o abastecimento de água, os estaleiros, os aeroportos e as estradas privadas são o seu projecto de vida, porque continuam a dar ordens nos nossos serviços públicos e nas nossas infra-estruturas?
Se afirmam que nas empresas privadas é que se cria emprego, porque não vão para lá criar emprego? Se acham que a solução é ser empreendedor, porque não são empreendedores e vão criar o seu próprio posto de trabalho, em vez de continuarem a receber as suas remunerações do orçamento de Estado?
O sector privado da economia é legítimo e tem o seu lugar na sociedade. O que não é legítimo é, em vez mostrar a sua valia num ambiente de sã concorrência, infiltrar agentes no sector público para desviar para negócios privados fundos do Estado e impostos dos cidadãos, para destruir serviços que funcionam, só para abrir campo à prestação privada dos mesmos.
Os infiltrados violam a ética de serviço público que consta do compromisso de honra de qualquer tomada de posse. Não deveriam deixar a gestão pública para quem quiser defender o que é público?
Elogio da coragem
Publicado em: O Gaiense, 4 de Maio de 2013
O presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, veio esta semana a Portugal dar uma forcinha ao membro do Conselho Europeu Passos Coelho. É neste órgão da UE, a que ele formalmente preside, mas onde manda quem pode (e todos sabemos quem é a senhora que lá manda) que se têm vindo a tomar as decisões mais gravosas para a Europa.
Quando Rompuy elogia Passos, está a julgar em causa própria. Passos, como sabemos, vai às reuniões do Conselho receber ordens e abanar a cabeça. Daí que vir agora o presidente dizer que Portugal é “um bom exemplo”, o trabalho feito nas finanças é óptimo e os resultados alcançados são muito positivos, parece não só inútil, mas sobretudo uma enorme falta de sensibilidade e respeito pelas vítimas das decisões tomadas e só em Portugal já são alguns milhões.
A esta falta de sensibilidade e respeito, Rompuy chama coragem: “Muitos líderes, tal como os do vosso país, mostram coragem. Estão convencidos de que têm que agir como agem. E é assim que tem que ser”.
Costumamos chamar coragem à capacidade de enfrentar com valentia ameaças fortes. Ora não consta que os reformados, os trabalhadores ou os doentes alguma vez tenham ameaçado o país. Pelo contrário, a nossa sociedade e a nossa economia têm sido atacadas por forças poderosas, essas sim bem fortes: os mercados e os especuladores financeiros, aos quais mensalmente são entregues os milhões de euros que nos são cobrados em nome da austeridade. Coragem política seria bater o pé a esses poderes, enfrentar os fortes em nome e em defesa dos mais fracos e expressá-lo nas reuniões do Conselho. Aceitar tirar aos fracos para dar aos fortes é simples covardia, ou pior, é um miserável serviço de traição, que na história da humanidade tem tristes precedentes e diversas classificações onde a palavra coragem nunca foi incluída.
O que diz Barroso
Publicado em: O Gaiense, 27 de Abril de 2013
Foi muito noticiada a declaração de Barroso de que a política apenas centrada na redução do défice “atingiu os seus limites”, apesar de considerar a austeridade necessária para corrigir os desequilíbrios.
Porém, penso que há algo de mais profundo e interessante nestas declarações, e tem a ver com a razão apontada para termos atingido esses limites: as políticas de austeridade não tiveram aceitação social, conduzindo a tensões na Europa. A grande falha da UE na resposta à crise, segundo ele, foi que “não fomos capazes de construir o apoio necessário”.
Ou seja, se por um lado não reconhece qualquer problema na política de austeridade em si, que estaria perfeita se fosse bem explicada e conseguisse convencer as vítimas, já por outro lado, o que Barroso vem reconhecer é que a aceitação social passa a ser um factor limitador para as políticas da UE.
Seria bom que o povo português atendesse bem nestas palavras. Enquanto formos aceitando, eles continuam. Se nos revoltarmos, eles serão obrigados a ter esse factor em consideração e as medidas podem ser bloqueadas. Nem os organizadores de manifestações poderiam ser mais eloquentes sobre a importância decisiva da participação popular nos protestos.
Barroso constatou que a austeridade não tem “o apoio necessário”. Óptimo. Mas agora o que é preciso é que uma alternativa política às forças do chamado “arco da austeridade” possa ter esse tal apoio necessário. Para deixarmos de andar em círculo ou em espiral, sempre a voltar para trás, e começarmos finalmente a andar para a frente.
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Pode aceder aqui ao texto integral do discurso que antecedeu o debate em que foi feita esta declaração.
Jantar em "La Case Créole" com Isabel Silvestre e o grupo "Vozes de Manhouce"
Hoje, 23, jantámos em "La Case Créole", em Bruxelas, com Isabel Silvestre, o grupo "Vozes de Manhouce" e amigos da região de Lafões que estarão amanhã no Parlamento Europeu, na homenagem ao Miguel Portas, no primeiro aniversário da sua morte.
Foi apenas um convívio amigo e um aquecimento para a sessão de amanhã, mas já um momento muito tocante para todos nós.
Homenagem a Miguel Portas no Parlamento Europeu
A delegação do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu promove quarta-feira, 24 de Abril, uma sessão de homenagem a Miguel Portas no espaço Yehudi Menuhin, nas instalações parlamentares de Bruxelas.
A iniciativa, que decorrerá a partir das 14 horas, assinala o primeiro aniversário do desaparecimento daquele que, além de ter sido um dos fundadores do Bloco de Esquerda foi ainda o primeiro deputado a representar o partido no Parlamento Europeu.
A sessão de homenagem contará com a participação musical do Grupo "Vozes de Manhouce", na sequência de um convite do próprio Miguel Portas, que por diversas razões não chegou a ser possível concretizar. As deputadas do Bloco de Esquerda, Marisa Matias e Alda Sousa, decidiram prestar uma dupla mas simples homenagem, cumprindo assim também uma das vontades do eurodeputado.
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