Uma chaga aberta no meio do mar


Publicado em: O Gaiense, 3 de Abril de 2010
Há um pequeno povo que veio a Bruxelas pedir apoio para que lhe seja reconhecido um dos mais elementares direitos: voltar a casa. São os habitantes do arquipélago dos Chagos, um conjunto de ilhas paradisíacas no meio do Oceano Índico, hoje sob domínio inglês.
No fim dos anos 60, o governo inglês procedeu a uma deportação forçada de todos os habitantes, a fim de ceder a maior ilha do arquipélago, Diego Garcia, aos EUA para instalarem uma das suas mais importantes bases militares.
Todos os habitantes foram metidos em navios de carga e levados para o exílio muito longe da sua terra, para as ilhas Seychelles e Maurícias, onde hoje vivem em condições de miséria. Os deportados nunca desistiram do seu direito de serem indemnizados e de poderem voltar às suas casas, hoje apenas ruínas semi-cobertas pela vegetação. Iniciaram um longo caso jurídico. Em 2000, o English High Court considerou a deportação ilegal. Ganharam o caso, mas viram de novo o seu direito negado pelo governo e pela rainha. Apelaram para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Lembram que são cidadãos da UE de pleno direito. E que, no artº 7º do Estatuto do Tribunal Penal Internacional, a “deportação ou transferência forçada de populações” é classificada como “crime contra a humanidade”. O problema é que, do outro lado do caso, está um poderoso Estado-membro e todo o peso estratégico-militar da sua desgraçada ilha.
O que temos nós a ver com este povo de Chagos, alguns originários de Moçambique? Temos a ver, pelo menos, com o nome. Vasco da Gama, na viagem para a Índia, terá sido o primeiro navegador europeu a avistar este conjunto de ilhas desertas a que, mais tarde, Pedro de Mascarenhas chamou as “Cinco Chagas”, em lembrança dos cinco besantes de prata que, no fundo azul dos escudetes, aparecem nas armas nacionais em homenagem às chagas de Cristo. Em 1532, Diego Garcia descobriu a maior ilha, a que deu o nome. Mais tarde, os ingleses e franceses transformaram “Cinco Chagas” em “Chagos”. 
Atendendo ao triste destino deste povo, nós, que conhecemos a origem bem portuguesa do seu nome (talvez um lúgubre prenúncio), não podemos deixar, nestes dias de Páscoa, de partilhar emocionados a sua longa paixão. De forma activa e solidária.

Não deixe de ver o filme de John Pilger, Stealing a Nation em:
http://www.youtube.com/watch?v=97aY-UMCNNs

1 comentário:

o Pedro que procura Inês disse...

o título deste blog é o cúmulo do narcisismo. Ao menos podias ter-te lembrado de qualquer coisa tipo "sem muros". Ah, ah, ha!